2 de ago. de 2009

O Corredor

O corredor
TERROR
Escrito por Tânia de Souza
No outdoor, enquanto o cowboy fumava, as luzes de néon invadiram as cortinas vulgares. Na penumbra do quarto abafadiço, um ventilador girava suas engrenagens corroídas quando Paulo moveu-se na cama, murmurando, preso aos sonhos. O suor escorria-lhe pelo pescoço. Ainda adormecido, passou a mão na pele pegajosa. A noite estivera abafada, e o ventilador, em sua ladainha espalhava a poeira que os hotéis guardam com o tempo. A música vinda da rua era dolorosamente bela: — For you I'm bleeding... For you, for you…
Fora a canção que o despertara. Ainda naquele estado de sonolência, as mãos procuraram o pequeno celular embaixo do travesseiro. Abriu os olhos e viu no painel azulado que ainda faltavam quinze minutos para às quatro horas. Mais uma vez despertaria e seguiria viagem, deixando aquele hotel. Suspirou, ah como odiava acordar antes do despertador, roubado em quinze minutos do seu sono. Virando a cabeça para o lado, olhos fechados, empurrou os lençóis para longe, evitando pensar no dia que logo se iniciaria. Tentou não sentir a boca ácida, guardando resquícios de whisky , enjoado com o cheiro da maquiagem e do perfume barato de alguma prostituta que lhe fizera companhia parte da noite. Vencendo a náusea, cobriu a cabeça para fugir da luz vinda da janela. A canção havia desaparecido apesar da melodia ainda ecoar.
Havia sonhado, a imagem ainda clara em sua mente: asas de borboletas, lábios que balbuciavam palavras que não conseguira entender. Na modorra entre o sono e a realidade, sabia que voltaria a sonhar com a menina, segurando algo não identificado e murmurando.
A cabeça moveu-se no travesseiro úmido, os sentidos entorpecidos, novamente adormeceu. Viu-se em um corredor escuro, cercado por quartos em ruínas e paredes grafitadas. Seus passos arrastavam-se no chão escorregadio, enquanto uma água fétida surgia fininha na parede ao lado, cores embaçadas da madrugada envolviam a tudo.
Cada penugem do seu corpo arrepiou-se quando a canção cresceu, entrecortando a melodia, ouviu seu nome em sussurros. Pressentiu nas sombras um vulto passando. Virou-se devagar, indeciso entre correr e o medo que o paralisava, no entanto, não havia nada, nada além uma porta entreaberta, de onde vinha um soluço, um pequeno lamento. Paulo empurrou a porta devagar e de repente, todos os seus membros amorteceram-se: era ela!
Estava encostada na parede, em um canto imundo, cercada por teias de aranhas, quando ele a viu. Bianca, os cabelos dourados em duas tranças e a fita solta pelos ombros. A velha angústia o envolveu, o ar faltou quando a dor tornou-se física. Sem perceber, uma lágrima começou a cair dos seus olhos. Balbuciou o nome que há muito não ousava pronunciar e os olhos amendoados ergueram-se, fitando-o sem parecer reconhecê-lo, os lábios cheios e rosados abriram-se, implorando:
— Socorro, por favor...
Paulo via os lábios moverem-se em um pedido mudo, ouvido-a dentro de si quando ela apontou com os braços finos o outro canto da sala. Ali, bem a frente de Bianca, da sua Bianca, um gigantesco escorpião retorcia-se. Feroz, a pele estranhamente branca, o animal possuía no ferrão que agitava-se ameaçador, uma ponta vermelha. O ferrão ia e vinha em direção a moça, cada vez mais perto. Paulo olhou ao seu redor, nas mãos viu-se de repente com um facão. Ele avançou aço contra carne, quanto mais fortes eram os golpes, mais o peçonhento se debatia, os olhos arregalados e azuis explodindo em sangue. As sombras cresceram por todo lado levadas ao som dos gemidos finos que subiam pelo ar, até que a carcaça albina jazia derrotada. Levantou os olhos, entretanto ela já não estava ali, apenas a ponta do vestido branco arrastando-se pela porta. Desesperado, ele a seguiu pelo corredor enlodado, quando enfim os corredores bifurcaram-se, ele a viu, esperando-lhe. As tranças douradas, a fita azul, a renda suave enfeitando a borda do vestido, como da primeira vez que a vira. Os mesmos olhos amendoados fitando-o, em expectativa. Ela agora em seus braços, a boca na sua, a pele, o cheiro que nunca o havia abandonado expandiu-se quando os braços o envolveram. Paulo tremia enquanto seu corpo a prendia na parede, explodindo de ternura e paixão, tocando-a por cima do algodão, sentindo o coração batendo sob o seu peito, ele chorou. Nos corredores sombrios, as notas espalhavam-se: — And every new dawn... ends in bitterness ...
O ventilador movia-se lentamente no quarto. As hélices foram parando, parando até que o silêncio sufocou as horas e Paulo acordou. Os olhos estavam úmidos. Os soluços irromperam no peito do homem. Abraçou o próprio corpo, sentindo o cheiro da pele amada, depois de tanto tempo, porque sua mente a trouxera de volta? A velha dor... amarga dor. O calor crescia. Novamente procurou o pequeno celular, os números diziam claramente: 3horas e 45 minutos. Um pesadelo, um maldito sonho. A cabeça repousou no travesseiro, aquela noite havia sido longa, sentia sede, os lábios ressecados. E ela. Ela impregnando-se em sua alma. Fechou lentamente os olhos, mais quinze minutos, na esperança de tê-la um pouco mais, forçou o corpo a descansar novamente. Foi se deixando embalar pelo sono até que o sonho voltasse. Estava novamente no corredor escuro. Na parede, recortes de jornais manchados de sangue exibiam letras turvas que o papel embolorado não permitia ler.
Os sussurros agora chamavam por seu nome, enquanto ele corria, tocava as paredes do corredor escuro que pulsavam sob suas mãos. Ouvia os passos leves, revendo o campo onde ele e Bianca haviam corrido pela primeira vez, sonhado tantos sonhos, dançando na varanda, as faces tocando-se, ah, era a mesma melodia.
Uma porta abriu-se ao seu lado. O mesmo lamento de antes veio de uma sala em ruínas. A menina com asas de borboleta estendeu-lhe os braços, murmurando palavras mudas, oferecia-lhe algo que não conseguia identificar. Quando um ruído feroz quebrou a mesa de vidro, ela afastou-se, entristecida. Um riso áspero cortou a sala e no outro canto, Bianca chamava por ele, implorando por socorro. O escorpião branco erguia-se, porém Paulo sentia seus pés presos no lodo imundo da sala. A agulha rubra tocou a face pálida. Bianca gemeu quando o ferrão vermelho perfurou-lhe o peito, a ponta fina dilacerando a renda branca, rasgando a carne e o tecido até um rio rubro escorrer pelo chão, o ventre dilacerado e, horror dos horrores, um bebe chorava entre as vísceras. Paulo gritou, gritou, gritou, até acordar com o próprio grito, as imagens congelando-o na cama, o ódio tomando-lhe o peito. Viu-se preso na velha angústia sem conseguir para de gritar, revendo o casamento, a família, o bolo, a valsa, as imagens dançavam em sua mente: Bianca sorrindo, Bianca no jardim, Bianca voltando do médico, Bianca caída no chão da sala, sangue por todo lugar e desde então, uma viagem eterna por hotéis, adormecendo nos braços de putas decadentes, embriagando-se com whisky barato, fugindo da dor.
Ao perceber que ainda gritava, Paulo tentou levantar-se, mas a dor na cabeça o impediu. O celular caído no chão marcava ainda 3horas e 45 minutos. Olhou para o teto tendo a impressão de que este estava cada vez mais perto. Sequioso, sorveu um resto de água mineral da garrafa caída sobre o tapete, para não ver as sombras que tanto temia fechou os olhos, vendo-se outra vez no corredor estreito, os gritos de Bianca chamando por ele, jurando-lhe amor, pedindo, implorando por socorro, enquanto o escorpião albino balançava ferozmente o ferrão vermelho, os olhos dela nos dele, tantas palavras não ditas, a velha dor.
Via-se de novo no sonho, consciente, porém preso, hipnotizado entre sonho e a realidade, não podia reagir ao escorpião branco que foi se aproximando. Paulo debatia-se, os braços amarrados, sabendo sem razão que enquanto gritasse estaria salvo. Foi quando, em um canto, percebeu a menina-borboleta, entristecida, estendendo-lhe os braços. Em suas mãos, reconheceu um antigo espelho. Quando Paulo viu-se refletido, o ar faltou-lhe, e num arquejo... era ele no espelho! Era ele era o escorpião branco! Era ele a fera. O ferrão que dilacerou o ventre amado, julgando ferir uma semente que não aceitava como sua, partiu dele! No rosto da menina que o fitava, reconheceu seus próprios olhos azuis e as tranças douradas de Bianca. Finalmente entendia o que ela murmurara, em monossilábicos gemidos:
— Por quê, meu pai? Por quê?
*************
Eram oito horas da manhã, quinta-feira cinzenta, quando os jornais noticiavam a execução por injeção letal. O condenado havia cometido o crime de uxoricídio. A esposa estava grávida e por milagre a criança sobrevivera. Quatorze anos passados em silêncio aterrorizante, vários laudos depois, enfim a sentença se cumpriria. Na pequena sala, uma jovem de cabelos trançados observava, ao seu lado, um relógio parado marcava 3 horas e 45 minutos. Com olhos marejados, viu enfim a injeção letal perfurar a tatuagem de um escorpião no braço do pai. Para ela... era o fim.
*************
No velho quarto de hotel, as luzes de neon apagaram-se quando a garota-borboleta partiu. Paulo ficou sozinho no velho corredor, ouvindo a melodia dentro de si, “for you, for you i'm bleeding” e ao longe, a voz suave de Bianca pedindo por ele. Sentindo às suas costas o escorpião branco rastejar nas sombras da eternidade, seus passos seguiram pelo corredor. Para ele, estava apenas começando.
For You I'm Bleeding - Wolfsheim


O Herdeiro




O herdeiro



E ele disse: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. ”
Mateus 4:9


Do alto de sua torre, Ultor observava o reino, sua herança maldita a cobrir-se de fumaça e trevas. A peste havia chegado e com ela, cumprir-se-ia enfim a promessa feita há vinte anos. Viera através de Ana de Bogna, cozinheira cujo destino sempre fora servir, naquela noite, desviara-se dos guardas para encontrar-se com o namorado num canto escuro de um dos jardins, mas jamais chegara ao encontro, o corpo fora encontrado coberto de pústulas que estouravam e formava úlceras; delirante pela febre, ela murmurava, "não, não deixem o herdeiro me pegar, não, os seus dentes..." A ladinha repetiu-se até decidirem averiguar. Esgueirando-se para a torre, tomados de medo e raiva, os homens foram recebidos com um olhar calmo por aquele ser assombroso. As ratazanas guinchavam desesperadamente, mas as mãos finas tocaram o pelo asqueroso e elas calaram-se; pela primeira vez, alguém ouvia a voz de Ultor. "Está feito", ele disse e mais uma vez, calou-se. A partir deste dia o caos e a morte chegaram ao reino, a peste espalhara-se e já não havia lugar para enterrar os mortos, que iam sendo queimados para evitar maiores contágios. O céu tingiu-se de vermelho e um cheiro ocre espalhou-se.

Nascimento


As rodas da carruagem saltavam sobre as ruas e feriam a neblina da cidade, levando para longe a prova viva de um dos maiores horrores que o homem já cometera. Na janela mais alta de seu palacete, o Conde Lars Ulrich de Rouam fechou as cortinas e voltou-se para sua nova existência, enquanto a carruagem seguia veloz em seu caminho para o interior. Angeline, sua filha, jamais seria vista novamente. A enfermidade súbita a afastara dos poucos amigos, os criados mais próximos jamais saberiam explicar o que acontecera. "Está feito", disse ao pequeno homem que o observava nas sombras.

Após horas de viagem sacudindo-se pela estrada cheia de percalços, a roda de madeira não aguentou a velocidade e quebrou-se, a carruagem virou-se, despencando em meios a arbustos e um barranco enlameado. Assim, os primeiros gritos da jovem mãe foram anunciados. O bebê chegara cedo demais. "Ayudame Maria", arquejava Angeline, ayudame! Entretanto, a espanhola que fora sua ama desde que dera os primeiros vagidos, tinha o pescoço estranhamente retorcido e já não poderia responder. Estava morta. Gotas de suor e tremores sacudiram o corpo enfraquecido, entanto não havia tempo para lágrimas ou pesar. A moça gritou por horas, agarrada ao braço do velho cocheiro, confidenciando-lhe em delírios sobre um homem que derramara sangue sobre seu corpo e de mãos descarnadas que a ameaçavam. O cocheiro benzeu-se quando viu as névoas que os cobriam repentinamente e um arrepio o percorreu quando a menina cravou as unhas em sua pele, implorando por ajuda, "os ratos, estão por toda parte, os ratos, os dentes... estão me devorando..." Finalmente um lamento agudo se fez ouvir, com o apoio do rude homem, o pequeno nascera. Desfalecida pela dor, a jovem mãe não viu quando recebeu o bebê enrolado em seus braços. Pedro de Aguirre era um homem prático, a roda estava imprestável, quiçá todo o veículo. Tais condições, somadas à aparência doentia da moça e do recém nascido indicavam como única solução a busca imediata por ajuda. Partiu deixando a pequena família encostada no que sobrara da carruagem. Em meio a este local desconhecido e solitário, nascia o único filho de Angeline de Rouan. O filho da vergonha e da dor cresceria sem suas benções e sem o carinho de mãe. A morte chegara com a vida.

Não se sabe ao certo quantos dias Pedro caminhou para conseguir a ajuda que necessitara, quando os servos o encontraram, estava ferido e delirante, balbuciando sobre uma floresta maldita onde a menina os aguardava com o neto do conde. Ao longe ouviram os lamentos agudos, como de um gato agonizante clamando por socorro. O corpo da jovem mãe já estava em decomposição, mas seus braços seguiam firmemente agarrados a trouxa em farrapos que lançava agudos bramidos pelo ar. O que viram aqueles homens jamais esqueceriam: o rosto desfigurado da moça apresentava-se lacerado, o cheiro da morte, mescla de sangue coagulado, enxofre e pruridos diversos empesteava o ar, espalhando-se quando a trouxa foi retirada dos braços endurecidos. Um enterro as pressas, o asco e a repugnância que o cheiro do bebê despertou marcariam seu destino; as pessoas sempre estariam afastadas do herdeiro do conde.

Não encontraram ama para a criança. Os poucos relatos que resistiram ao tempo e chegaram posteriormente à corte, contavam que o povo olhava com desconfiança para aquele que colhera a vida da mãe ao nascer, pois além da aparência sombria, o cheiro da morte permanecera com ele. O filho da jovem beldade não herdara sua beleza, seus traços eram degenerados e repugnantes, principalmente os olhos claros assustavam as amas, que temiam ter o leite seco para os próprios filhos, por isso foi amamentado com leite de cabra, a pele era fria e endurecida. Por ser o herdeiro do conde, em seus primeiros anos recebeu o tratamento que lhe permitiu sobreviver na zona rural. As poucas crianças o evitavam, o avô jamais o procurara, mas era saudável e crescia, apesar do pequeno horror que sentiam os que o encontravam inesperadamente, acostumaram-se a sua presença no pequeno feudo, recebiam raras visitas e aceitavam calados o destino de servir sem questionar.

A corte

O salão dourado reunia a nata da nobreza, que observava o homem curvado fazendo malabarismos, o olhar malicioso arrancando risadas exageradas dos cortesãos. O corpo abandonado no trono, coberto por jóias riquíssimas, e sendo acariciado por jovens beldades, o Rei Lars Ulrich de Rouam observava todos com olhos semicerrados quando um homem aflito adentrou ao salão dourado. O que dissera ao rei não se sabe, mas imediatamente o rosto apresentou a dureza que lhe era característica, a festa estava acabada.

Numa saleta, o garoto aguardava, observado com atenção por dois soldados e um servo rústico e de aspecto debilitado. Finalmente conheceria o avó que o mandara para tão distante. Aos dez anos, sua aparência tornara-se ainda mais assustadora, a carne da face parecia solta sobre os ossos, apesar dos músculos fortalecidos, veias saltavam arroxeadas por detrás da pele esverdeada e uma corcova se anunciava. Mas o primeiro contato do rei com Ultor não se dera pelo olhar, fora o cheiro nauseabundo que o encontrara ainda no corredor, mistura de madeiras apodrecidas e úmidas, gengivas estragadas pelo escorbuto e o ranço das feridas mais infectadas não poderiam descrever o cheiro que espalhava-se pelo castelo. "O cheiro do demônio", murmurou o rei, ao entrar na pequena sala. Todos ajoelharam-se, menos o jovem que desconhecia qualquer regra e portava-se mesmo como um pequeno selvagem. As poucas crônicas da época dizem apenas que o campônio fora duramente castigado por trazê-lo ate ali, mas não houvera surpresa nos olhos do rei, apenas curiosidade e um leve tremor de lábios ao ver os olhos claros fitando-o. O feudo fora atacado na noite em que o garoto faria dez anos. Dizimados os aldeões e os simplórios senhores feudais que o abrigavam, a morte mais uma vez se desviara dele. Um dos poucos sobreviventes recebera a incumbência de levá-lo ate o reino, para que fosse decidido o seu destino. E assim foi feito.

Aquele era um reino rico e opulento, as colunas erguiam-se majestosas e catedrais agulhadas ambicionavam o céu. Pois em meio aquelas torres pontiagudas e imponentes, o herdeiro encontraria sua morada. Uma porta selada e a altura incomensurável o manteriam afastado dos olhares curiosos. Logo, os aposentos ao seu redor foram abandonados, pois o cheiro que o rodeava contaminava a todos. Sempre oculto nas sombras, ainda mais que no antigo feudo, fora duramente castigado no dia que ousara sair de sua morada. Não chorava nem falava, mas desenhava com avidez, pequenos carvões tornavam os olhos ainda mais brilhantes e durante horas dedicava-se a escrever estranhos hieróglifos nas paredes, entoando arremedos de canções insanas e grunhidos; emaranhadas, suas escritas confundiam-se e espalhavam-se até alturas inexplicáveis. Os servos temiam-no, desde sua chegada, ratazanas cresciam e infestavam o castelo de maneira anormal, mais de uma vez, fora surpreendido cercado por elas, em guinchos, parecendo comunicar-se com os animais. O primeiro acidente aconteceu com o jovem Thiago, ao levar a comida ao herdeiro – assim chamado as escondidas pelos criados – ao ser surpreendido guinchando com suas mascotes, lhe dirigira um olhar tão feroz que o menino voltara correndo para a cozinha, recusando-se a seguir as ordens para que voltasse. Não se sabe como, mas naquela noite, ardeu em febres, delírios e na manhã seguinte, o corpo sem vida apresentava lacerações como se pequenos e pontiagudos dentes o tivessem ferido. Todo sangue fora retirado do seu corpo franzino.

A cobrança

O rei seguia indiferente, acumulando riquezas e amantes, de suas guerras era sempre o vencedor, um império estava se formando e sob a égide do castigo e da virulência, recebia obediência cega. No entanto, entre as gentes menores do reino, corriam boatos. Outrora havia no reino um rei justo e pacífico, cuja morte inesperada, assim como dos três sucessores imediatos despertara desconfianças, mas nada fora provado e assim Lars Ulrich de Rouam tornara-se o novo e tirano rei. Os murmúrios sobre a súbita ascensão cresciam junto com a insatisfação do povo e dos nobres, estes, manipuladores de segredos, encontraram em um antigo médico da corte caído em desgraça, elementos para vingar-se do novo rei. E assim a historia deste estranho personagem começava a esclarecer-se, à medida que a repugnância em relação a ele crescia.

Em troca de algumas moedas de ouro, entregara este médico um pequeno diário pertencente ao seu falecido pai, servo das sombras que fizera junto ao rei, um pacto demoníaco. Ultor, por toda repugnância que despertara, era de fato um herdeiro, mas não um príncipe herdeiro da terra, era um herdeiro do inferno, era um maldito, o filho do incesto e da decadência, a prova viva da maldade e da ambição, o herdeiro do demônio, cuja primeira vítima fora aquela Angeline morta aos 14 anos, seviciada pelo pai em uma missa negra. Entregue a estranhos e profanos rituais, fora escolhida pelo parricida para abrigar o corpo daquele que ficaria conhecido por todos como o herdeiro. Em troca da pureza de sua filha, tornara-se o novo rei, com poderes grandiosos, não oferecera somente a sua alma e de todos do seu reino para quando o senhor das trevas fosse cobrar o preço, oferecera o ventre de sua única filha para abrigar aquele que seria o primeiro de muitos filhos do demônio em terra, seres tão malignos e bestiais que trariam consigo a doença nas unhas e nos dentes, seres que carregariam consigo todos os odores do inferno e teriam como missão colher as almas para o reino de seu verdadeiro pai, um demônio tão antigo quando os elementos tomara o corpo de Lars Ulrich de Rouam para plantar a semente do mal naquela noite nefasta. E desta semente nascera Ultor, cujos traços degenerados, os dentes apodrecidos e pontiagudos adornados por uma carne flácida e pútrida completavam o quadro terrificante. Horrendo e forte, todas as noites escalava as complexas torres para ter acesso a um pequeno balcão, onde, cercado por ratazanas, observava a vida no reino.

No entanto, quando o segredo foi descoberto, trouxera com ele o preço acertado, de nada adiantara aos inimigos do rei conhecer tão hedionda verdade, pois em dez dias, o horror corporificara-se, lamentos e mortes não poupavam ninguém; a fumaça espalhava o constante odor da morte. Era chegada a hora da cobrança. O fim de Rei Lars Ulrich de Rouam fora inesperado, ao ver a decadência do reino e de seus súditos, lembrou-se da promessa feita ao demônio. Ele então não acolhera e criara o filho da besta, aquele nascido de sua própria filha? Seria mesmo este o fim de seu reinado, não fora ele um servo fiel? Com estes pensamentos, seguiu a procura de Ultor, mas ao entrar na cela úmida, escutou apenas um grunhido; virou e deparou-se com uma enorme ratazana, os olhinhos brilhando no escuro, enfurecido, chutou o animal imundo, mas sentiu nas pernas que algo o roçava, era outra, ainda maior; gritou pelos criados, mas seguindo suas próprias ordens, aqueles se mantinham afastados dali durante a noite. O rei caminhou em direção à porta quando seus pés tropeçaram em outra ratazana, os guinchos aumentaram quando caiu pesadamente ao solo e foi lentamente cercado pelos animais. Exibindo dentes agudos e ferozes, avançaram sobre ele, "os ratos, estão por toda parte, os ratos, os dentes... estão me devorando..." seus gritos percorreram inutilmente os corredores e salas vazias. O reino dourado chegava ao fim ao som de guinchos e dentes mastigando com ferocidade.

Do alto de sua torre, Ultor sorriu, virando levemente o pescoço para aquele que havia sido seu progenitor terreno, depois voltou a observar o reino. As agulhas enegrecidas pela fumaça apontavam para o alto como se pedissem por socorro, mas a fumaça e as trevas cobririam a luz por muito tempo. O novo reino se estabeleceria por séculos.



Fim?


Por Tânia Souza



1º Exercício de Elaboração de Contos Fantásticos no Fórum da Câmara dos Tormentos. Composição de contos inspirados por imagem.


16 de jul. de 2009

Pesadelos


Pesadelos


Certa noite, um sussurro eu ouvia
Rastejante, um pesadelo renascia

Vencendo o medo que angustia
Ousei olhar o que o escuro sugeria

Ah... O que vi debaixo do lençol
Foi angustiante sina, foi meu mal.

Um terrível monstro sem tentáculos
Tornava o meu medo real 


Asquerosa respiração me assustava
Com dois olhos enfermiços
A criatura tenebrosa me espiava

Desde então, dormir não já posso

Se fecho meus dez olhos eu vejo
A pequena fera, o ser infernal
Esperando que meu sono venha afinal.


Tânia Souza

Dedicado à querida sombria Celly Borges.

11 de jul. de 2009

Pesadelos II

Pesadelos II

Ai de mim, pobre de mim
O meu quarto tão querido
Transformou-se num inferno
Em sombras de dor e medo
Oculta-se um segredo

Um Deus em degredo
Aqui faz morada
Chegou sem aviso
Este monstro e seus bramidos
Alimenta-se de gemidos
Escraviza meu juizo
Tortura a minh’alma

E se não estou sozinho
O peçonhento aguarda
Ataca na hora apropriada
Só ousa ameaçar-me
Para refeição tão horrível
Quando chega a madrugada

Este ser tão terrível
Sonda minha mente
Com milhões de tentáculos
Começa o espetáculo
Desfaz os segredos
E sorve meus medos

Disso se alimenta o medonho
Dos mais cruéis caminhos
Que trilho nos sonhos