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19 de set. de 2011

Angel - Marcio Renato Bordin


Angel

Um conto de Marcio Renato Bordin

No balcão, os bêbados gritavam pedindo mais uma dose, cambaleantes nas próprias pernas. Uma mulher vestida em farrapos, parada na rua segurava os filhos barrigudos pelas mãos e camisas enquanto gritava pela alcunha de seu marido... Um dos bêbados... Fosse qual fosse, nem se dava o trabalho de olhar para a porta. 

Uma dupla sertaneja de quinta categoria cantarolava mais uma música de seu repertorio brega. Aquilo doía mais nos ouvidos do que os gritos histéricos da maltrapilha esposa lá fora.

N’uma mesa em minhas costas, um grupo mais jovem jogava truco enquanto enxugavam caixas e caixas de cerveja...  Esmurravam a mesa aos berros, subiam nas cadeiras, xingavam e riam... Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento.

Era noite de sexta-feira. Só queria tomar algo para relaxar o corpo da estressante semana que findara. Parei no primeiro bar que encontrei. Bebericava minha cerveja no balcão. Um copo n’uma mão e um cigarro na outra. Estava ao lado dos bêbados, de costas para os jogadores, perto dos músicos... Nunca tive tanta certeza de que o inferno existe, e eu estava nele.

Ráptus: s. m.

Psiquiatr. Impulso violento e brusco que pode levar um homem a um Ato violento fazendo-o perder o controle sobre si próprio.

Eu estava prestes a sentir na pele o verdadeiro significado dessa palavra... Ráptus.

2 de nov. de 2010

A Morte sentou ao meu lado - Por M.D. Amado


M.D. Amado

Hoje acordei ao seu lado e senti seu hálito em meio ao vapor do banho quente.

Hoje eu não quis tomar café. Tinha um gosto fúnebre na boca. Um odor de rosas mastigadas invadiu o escritório. Ouvi seus passos, nas batidas de uma porta mal encostada, que dançava com o vento. Não, não senti suas mãos.

Disse aos amigos o quanto os amo. Sabe-se lá de onde veio essa vontade... Resolvi perguntar, já que ela estava ao meu lado.

“Veio de você?”

A Substância - Por Paulo Soriano

Chamo-me Victoria Birth Hatherly e meu pai acaba de ser enforcado, após três meses de reclusão e um julgamento tumultuoso.

      Ontem à noite, os verdugos permitiram-me, finalmente, visitar o meu pai.  Ele estava bem mais sereno do que eu podia esperar.  Deu-me um beijo de despedida e depositou em minha mão uma longa carta.   Disse-me que não dispunha de tempo suficiente para fazer, pessoalmente, as incríveis revelações que, ao longo de dois dias, freneticamente entornara na missiva. Pediu-me, apenas, que lesse a carta com a maior urgência possível, porque eu estava circunscrita por um grande e iminente perigo.


Só espero - Por Angel Ruiz

Estou aqui, apenas esperando que tripudie, que pisoteie meu crânio e ria novamente.
Apenas esperando que sambe encima desse corpo morto
Que cuspa no caixão aberto
Que corte a carne ainda fresca da morte recente
Frite e coma esse coração magoado e amargurado pela perda e pela solidão.
Faça isso com todo o prazer... Com amor e ódio...
Em nome de todos os seus martírios
Arranca fora esses olhos que choram agora
Deixa as lágrimas se misturarem com o sangue a correr livres
Deixa-me chorar todas as dores e mágoas que tenho em mim
Quem sabe assim elas cessem.
Espero ainda que me deixe morrer aos poucos, cega para o mundo...

1 de nov. de 2010

Ampulheta - Por Flávio de Souza



A chuva gelada, que caía lá fora, não amenizava a temperatura elevada de seus pensamentos. Vivian olhava através do vidro da janela e pensava sobre uma fórmula mágica que pudesse livrá-la da situação difícil na qual se encontrava.

Sempre fora uma garota muito cética. Crendices e superstições nunca fizeram parte de seu estilo de vida, nem mesmo o horóscopo do jornal de domingo lhe atraía. No entanto, os acontecimentos dos últimos dias fizeram com que ela repensasse a respeito de suas próprias convicções.

Até um mês atrás,  Vivian seguia a rotina que marcava a sua vida, sem maiores problemas. No entanto, a incerteza selvagem, a qual assalta de súbito a todos aqueles que caminham pelas ruas das grandes cidades, resolvera apanhá-la em um desses momentos que julgava tão comum.


Fúnebre - Por Adrianna Alberti

Aos senhores aí distraídos:
Aviso!
Adormecem sob meus restos
Mas não percebem e não sentem.
Apenas cuidado onde pisam
Fiz desse chão banquete aos vermes
Fiz desse sereno minha última morada
Perdoem meus os trajes.
Apenas cuidado!
Não profanem meu descanso.




Ela - Por Luiz Poleto



Sentada naquele banco, ela contemplava a imensidão do lago à sua frente. A tonalidade escura parecia exercer algum tipo de fascínio nela, que todo dia estava ali, sentada. Ao fundo, no horizonte, a imensa cadeia de montanhas rodeava o lago, quase formando uma prisão natural.

Todos os dias, algumas pessoas chegavam, algumas parecendo desnorteadas, e paravam na beira do lago. E ela levantava, fazia um sinal, e as pessoas a acompanhavam. Algumas relutavam, mas por fim, por não terem lugar aonde ir naquele imenso deserto, acabavam indo também.

Sem dar uma palavra, ela as guiava até a outra extremidade do lago, onde a água parecia mais escura do que antes, e, em movimento das mãos, as águas se afastavam – como em um gesto bíblico – e revelavam uma escadaria, que descia para dentro do lago até onde a vista alcançava.

Meu, Seu - Por Susana Lorena


Meu
O sorriso, o abraço
o beijo, o carinho
Seu
A frieza, a indiferença
Esquivar, soltar

Meu
A pergunta, a dúvida
a insistência, a espera
Seu
A resposta, a calma
a traição, o basta


Meu
Mais perguntas, mais dúvidas
a tristeza, a raiva
Seu
O ponto final, a decisão
O olhar, a sinceridade

O Lamento da Carne - Por Celly Borges


   









O Lamento da Carne

Na noite em que a mente implorava o eterno descanso,
minha única visão do imundo se fechou, cedendo o curso
ao verme que se desenvolve, propaga-se
na matéria orgânica em decomposição que sou.

31 de out. de 2010

Quando Deus nos abandona - Um conto de Paulo Soriano

Lebourreau, o bruxo astuto e poderoso, aproveita-se da dor e do desespero de uma mãe e, com a astúcia das sombras convence, deturpa, ludibria, engana, ah, mago cruel cruel. Conheça Lebourreau neste conto sombrio, melancólico e angustiante de Paulo Soriano, e lembrem-se, “Quando Deus nos abandona... Lebourreau  nos assoma.”! 


Quando Deus nos abandona
Paulo Soriano
 Para Fernando Ferric.

As vigorosas batidas, que vinham da porta da cabana,  deixaram o coração de Thérèse em sobressalto. “Quando Deus nos abandona - pensou Thérèse -, Lebourreau  nos assoma.”
— Quem bate? – perguntou Thérèse, embora bem soubesse que Lebourreau, com a lanterna em punho,  lançava a sua sombra maligna sobre os umbrais da pobre choupana.
Thérèse  apertou ambos os filhos contra os seios, sentido-lhes a respiração quente e irregular, típica dos moribundos devastados pela peste. E, arrastando-se como podia,  recolheu-se ao  ângulo mais remoto da parede. “Quando Deus nos abandona - pensou Thérèse -, Lebourreau nos ilude.” O vento, que se esgueirava pelas frestas de adobe, trouxe consigo a voz calma e melódica do velho mago:
            — Deixe-me entrar.  Trago-lhe boas-novas!

O Sétimo - Por Celly Borges


Entre pactos e maldições, vertiginosamente nos vemos em um cenário noturno na floresta, onde acontece um pacto das sombras em meio ao círculo de fogo. Assim conhecemos  O Sétimo, um conto macabro e assustador de Celly Borges.


O Sétimo
Celly Borges

Numa noite muito quente, Ronald derretia de suor em baixo daquela túnica e do  capuz. Queria levantá-lo para enxugar o rosto, mas Joana, sua esposa, o impedia  segurando-o pelo braço a cada movimento involuntário de levá-lo à face.
Agora era tarde, pensaram simultaneamente, enquanto olhavam em volta, estavam reunidos em um círculo em uma clareira no meio da floresta densa, com outras cinco pessoas cada uma segurava uma vela. Formavam a união das Sombras. No centro deste círculo, uma fogueira, que iluminava mal e tornava tudo muito sinistro.
– Irmã Joana, chegou o momento, ao lado da fogueira, dois membros da seita estenderam um colchonete, para aproveitarem aquela luz.
Joana olhou para Ronald, que segurou as mãos dela, e a levou até o colchonete. Ela apertou a mão do marido, muito forte. Já não tinha mais certeza se ainda queria aquilo.

Missa Negra - Por Pedro Moreno



Missa Negra

Por Pedro Moreno


Apesar do frio fora do esgoto, dentro dele estava aquecido, talvez por causa das chamas das velas que afastavam a escuridão física do local.

Sim, eu disse física.

A escolha do esgoto não fora aleatória. Quantos amigos você conhece que frequentam os subterrâneos da cidade? Nenhum? Claro, esse era o propósito. Apesar de existirem as missas negras, digamos que elas não são tão bem quistas pela sociedade.

O BEIJO - Por Susana Lorena


         Um conto envolvente, que transporta o leitor para outras eras, onde perseguições, magia, fanatismo e seduções decidiam destinos. Leia e viaje para um universo distante neste conto deliciosamente sombrio de Susana Lorena.


O BEIJO

I

      — Ela não deve permanecer aqui! – Ele repetiu a frase mais uma vez.
      — Você se refere a um enterro cristão? – O padre perguntou incrédulo.
      — Não! Eu digo na floresta ao norte da cidade.
      Um silêncio reinou na sala onde se reunia quase todos os aldeões da comunidade. A pauta da vez: Um jovem, Lúcio, queria impedir que uma jovem, Serena, fosse queimada sob a acusação de bruxaria. Não que ele quisesse que ela fosse poupada. Sua idéia era de que a moça fosse enforcada e enterrada, longe da vila, mais precisamente dentro da densa floresta que cercava três quartos do lugar. Tudo aconteceria no dia seguinte e as coisas estavam longe de acabar.
      Lúcio tentou convencer a todos de todas as maneiras:
      — Se nós a queimarmos, suas cinzas continuaram aqui. – disse ele.

Bruxas - Um conto de Flávio de Souza

"Bruxas" Um conto de Flávio de Souza!
Revisitando o tema da bruxa como clichê literário, o autor apresenta-nos este conto inusitado, entretanto, sem fugir dos desatinos e malefícios que um bom conto  fantástico deve conter. Clichês podem ser inspiradores!!!!! Tenham todos uma leitura sombria.

Bruxas
Flávio de Souza

          Os braços da mulher estavam em carne viva. O sangue dos novos ferimentos se misturava às manchas pegajosas daquele que já estava ressequido. Eles não tinham pena, a misericórdia não habitava seus corações. Sob chutes, xingamentos e pedradas, ela era arrastada para o centro da praça. Os grilhões que prendiam seus braços e pernas, não lhe davam oportunidades para fuga. As correntes pelas quais era puxada, produziam uma sinfonia macabra no contato com o chão.

Não se trata de nenhum vilarejo europeu, que nos remeta à época da Inquisição, longe disso, o local nos é bem mais próximo, mas ao que parece, a tradição, esta sim, é bastante semelhante aos antigos hábitos, o diferente é maldito e, portanto, merecedor de punição.

16 de mar. de 2010

Algo Selvagem - Henry Evaristo

Hoje, passado um mês da partida inesperada do amigo e escritor Henry Evaristo, Descaminhos Sombrios inspira-se na ideia do Luiz Poleto, do blog Casa das Almas e como forma de homenagem,  publica um conto desse magnifico escritor. Angustiante, feroz, surpreendente e de certa forma, melancólico, Algo Selvagem - conto publicado no livro Um Salto na Escuridão -  é mais um retrato do talento único de Henry Evaristo.


CAPÍTULO I    

Só me disponho agora a relatar o que ocorreu na estrada do antigo presídio, durante a madrugada de 25 de dezembro de 1975, por que sinto subitamente uma incontida necessidade de aliviar, por pouco que seja, minha mente desta dúvida cruel que me assola há mais de 30 anos.  

Serei breve, muito breve, pois tudo aquilo ainda me assusta deveras e neste momento estou sozinho, é tarde da noite, e a escuridão grassa nos cantos ocultos do lado de fora.

Esta maldita noite eu passara em casa de meu tio materno, cuja filha, minha prima Paula, me era de muita estima e até ensaiávamos um romance meio incestuoso e certamente proibido pelos ditames de nossa família ultra-conservadora.

7 de mar. de 2010

“Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
— Dormir, talvez chorar
”.



Manoel de Barros

2 de jan. de 2010

Ela - Por Luiz Poleto



Ela


Por Luiz Poleto

Sentada naquele banco, ela contemplava a imensidão do lago à sua frente. A tonalidade escura parecia exercer algum tipo de fascínio nela, que todo dia estava ali, sentada. Ao fundo, no horizonte, a imensa cadeia de montanhas rodeava o lago, quase formando uma prisão natural.

Todos os dias, algumas pessoas chegavam, algumas parecendo desnorteadas, e paravam na beira do lago. E ela levantava, fazia um sinal, e as pessoas a acompanhavam. Algumas relutavam, mas por fim, por não terem lugar aonde ir naquele imenso deserto, acabavam indo também.

Sem dar uma palavra, ela as guiava até a outra extremidade do lago, onde a água parecia mais escura do que antes, e, em movimento das mãos, as águas se afastavam – como em um gesto bíblico – e revelavam uma escadaria, que descia para dentro do lago até onde a vista alcançava.

23 de dez. de 2009

A Casa das Almas - Luiz Poleto

Descaminhos Sombrios apresenta um conto magistral de Luiz Poleto "A Casa das Almas" . Narrativa que conduz o leitor por um caminho onde a angústia das imagens consegue ser captada a cada instante em crescente expectativa até o supremo terror.  De forma peculiar, o autor nos leva por um labirinto onde o belo e o feio convivem de forma aflita e sedutora, da qual não se pode fugir. Aprecie e arrepie-se!

Para Leonardo Nunes Nunes, Paulo Soriano e Henry Evaristo. 
 
Ninguém sabe ao certo quando ela foi construída, mas todos sabem que foi desativada sob estranhas circunstâncias até hoje não explicadas de forma convincente. Mas, independente disso, lá está ela, sozinha em meio ao campo, com apenas uma estreita estrada de terra, que no passado era o único caminho em meio ao ralo matagal que levava até o portão principal da Igreja de Tampadas.

30 de nov. de 2009

O templo de Zarhaad - Henry Evaristo

       Descaminhos sombrios tem a honra de apresentar um conto singular de Henry Evaristo. O autor de Um salto na escuridão mergulha de forma original na obra de Lovecraft, mas o faz de forma criativa e única, mantendo o estilo que já lhe é característico. Arrisquem-se à angustiante experiência de conhecer o templo de Zarhaad.  


O TEMPLO DE ZARHAAD

Henry Evaristo

    Sempre me senti atraído pelo insólito. Quanto jovem despendia horas a fio absorto na tarefa de garimpar nas bibliotecas de meus familiares todos os livros que abordassem temas assombrosos e fantásticos.
  Tudo naquele universo me interessava profundamente e meus esforços para tocá-lo, de qualquer forma, tornaram-se cada vez mais veementes com o passar dos anos.
    A herança recebida de um tio tirou-me da miséria em que a morte de meus genitores me deixara e com trinta e cinco anos eu soube, pela primeira vez, o que era a liberdade financeira quase sem limites. Minha ânsia pelo inusitado que existe nas entrelinhas do mundo, podada durante os últimos anos pelas dificuldades financeiras e pelo trabalho que tinha para manter a casa apenas com meus ganhos com aulas particulares, cresceu desmesurada e diretamente proporcional à fortuna que, de repente, eu vira depositada em minha conta no banco. Eu, como único sobrinho do velho Santmartin, herdara-lhe a fortuna.

21 de nov. de 2009

Novembro Insano

Novembro Insano

Não sei se foi o calor que nos matou
Mas morremos naquele novembro
Quando a febre tornou-se rotina
Os rostos avermelhados
Os olhos mortiços
Lábios rachados
O sangue fervia
A intolerância
A agonia
A ira
De um olhar raivoso
O sangue derramava-se
No ódio que o calor transmitia