20 de jan de 2013

Mudança de casa

Amigos e leitores ocasionais, estou tentando unir os conteúdos de todos os blogues em um só, ficarei muito feliz em receber a visita de vocês todos no meu novo cantinho:



7 de jan de 2013

E eu que nunca havia pensando em escrever terror e horror, mas as histórias mais terríveis ( para mim) nem pedem pra ser contadas, simplesmente são, ainda que eu deteste a violência e de vez em quando, ainda tenha medo de olhar a escuridão.

16 de nov de 2012

Encantada


Sete Maria tinha a vila dos meninos

Sete Maria dentro do sertão
Sete destino diferente, sete sina
Sete caminho para o coração

(...)
Das Graças encantada, moça feiticeira

Virou coruja e mora num grotão.


Sete Marias - Sá e Guarabyra


Encantada

Tânia Souza


Vila dos Meninos quase não tem meninos. Meus olhos percorrem as casas e sei que a paz dorme com eles. Ali, no casebre aconchegante, o avô insone relembra o passado, lá, no banco da praça, a moça espera o namorado. No escuro do quarto, a mãe cansada da lida sonha, enquanto o recém-nascido dorme.

Durante o dia, o sol queima a moleira das gentes, e quando noite cobre sertão, os uivos dos bichos seriam até bonitos de se ouvir... Não fossem cravejados do cheiro da morte empestando até as estrelas. 

Tempo foi que não era assim. Mas tempo conta histórias que nem sempre são reais. Tempo doura as tristezas, porque fardo ardido por demais, alma não aguenta. E assim, nascem as lendas. 

Contam que quando mainha partiu,  o dia amanheceu feito hoje, ainda não queimando de luz os olhos da gente, e os calanguinhos corriam pra debaixo das pedras. Era noite quando o Pai mandou que Maria do Rosário juntasse as meninas e fosse pra fora. Lá dentro, mãe gritava tanto que nem dava pra contar. Depois, foi chorinho ardido de criança nova. Boca não falou palavra, mas todos pensavam o mesmo: quem dera dessa feita fosse menino. 

Mas era não. Era mais uma Maria que nascia. A sétima. E na terra quebrada do sertão, nossa história - mais triste que fosse inventada - tava longe de findar. Ganhava era tinta vermelha que esse chão não cansa de beber. 

Não é lida fácil ser mulher, no sertão, menos ainda. E quando se traz a sina de ter matado mãe? Pai não queria, mas a parteira insistiu que eu fosse Das Graças. Das Dores já tinha uma na família, que fosse das Graças, então, para compensar a dor que causei.

Vila dos Meninos havia sido boa pra nossa gente. Mas cobrava preço alto. Tempo corria e hora que o mal chegava, era de sangue a paga. Uma maldição de tempos mais velhos que as pedras surgia. Os antigos contavam e os mais novos, mangavam. Muito tempo se passara desde que o mal viera por derradeira vez e o último avô já nem se lembrava.

Mas uma noite, elas voltaram. Quando as asas da morte chegaram, eu tinha sete anos.

Sempre sete. 

O vento anunciava a tempestade e o povo sorria com cheiro da chuva que se avizinhava. Mas era outro vento, esse. 

Um vento que vem zunindo, levantando as poeiras guardadas da terra e cobrando a sede que o chão gemia, dia a dia. Naquela noite, não vi estrelas, nem dormi. Lá fora, asas da morte tampavam a lua de espanto e os gritos anunciavam desgraça. Passou rente a morte no nosso telhado. Só quando sol nasceu, a certeza de mais um ano de paz era feita. Mas nalgum lugar, era choro e lamento. 

E Vila dos Meninos foi ficando sem meninos. A sombra que cobria o luar tinha cada vez mais sede e vez ou outra, rasgava o costume, levando um guri que artioso ousava sozinho no entardecer. 

Nas meninas, não bulia. Isso era o que eu pensava. 
Tempo passou, passou e passou... e vida era pedra ardendo no meu peito de menina. Cedo acostumei com desdita de pai não gostar de me olhar. Era das graças de minha mãe que ele chorava e lamentava ver em mim. 

As irmãs se foram pelo mundo. Eu fiquei. De mim, diziam no povo que variava. A cada ano, a cidade mais triste, a morte bafejava o ar e levava o que mais de precioso: os filhos da terra.


Houve caçada, os homens seguiam pistas por noites, mas do mal alado, não havia rastro algum. Mas estavam lá e eu sentia. A cada noite que o luar me chamava, eu sentia a presença das sombras. Até nos meus sonhos, eu sentia.

Pois, coisas que não se viam existiam e eu bem sabia. Eram miudezas que os olhos nenhum viam. Sonhava com estrelas e noites onde se moviam criaturas minúsculas, famintas de risos e vida. E vezes que acordava longe, perdida de tanto vagar nas imagens que os sonhos traziam, eu sabia que não fora apenas sonho. 

Eu sabia da voz que embalava meus sonhos em tristezas a cada ano.

E até que chegou o tempo que me fiz moça. Bonita, mas estranha. Encantada, sussurravam uns, maldição de pai, contavam outros. E eu apenas seguia meu caminho numa terra marcada pela dor. Sofria de doença de andar enquanto dormia. Mas eu sabia que não andava só.

Até que uma noite, as estrelas chamaram e não me neguei... já no escuro uma faísca buliu o ar, me chamando sempre. Não tive medo.

Quase dia, a caverna.

Achei ouro e pedra de valia grande no mais profundo grotão. E nas paredes, uma história que não deve nunca de ser contada. Nos bolsos e onde pude, levei para a vila as preciosidades da terra. O povo sorriu a fartura da sorte e grande festa seria armada. Mas eu não esquecia os traços em sangue na pedra.

Ainda naquela noite, elas voltaram. E descobri que minha sina de Maria, a sétima irmã em uma terra maldita não teria outra trilha. 

As chamas da fogueira não impediram que as asas me levassem para longe. O medo ferrou a alma daquela gente, mas com a paz dos dias vindouros, a história ganhou outras cores. 

No silêncio daquelas paredes onde, quando vi por vez primeira os riscos na pedra, eu soube da minha sina de Maria. Maria fada, Maria mágica, Maria Bruxa... Maria das Graças. 

Era minha a missão de guardar a terra. Encantada, virou coruja e mora num grotão, diziam, quando fiz morada no grotão sombrio. Maldita, eu sempre soube, e as sombras que voam ao anoitecer em busca de sangue, somente meus olhos podem velar. 

Não, em Vila dos Meninos quase não tem mais menino. Cuidei que não fosse assim, mas a fome e a sede delas é mais forte que minha magia e aos poucos, elas conseguem fugir... Os dias vão passando, e a luz dos meus olhos vacilam. 

Entanto, n’alguma casinha humilde, nasceu outra Maria, sétima filha que, das coisas que todos podem ver, ela vê muito mais.

E todas as noites, ensino a ela, em sonhos, a sina de ser sétima Maria.

22 de out de 2012

Acalanto das águas

Acalanto das águas 

Tânia Souza


Sentiu as folhas e o frio da terra sob seus pés descalços. No aconchego obscuro da floresta, esgueirou-se por entre as árvores centenárias, ignorando as cascas ásperas arranhando sua pele. O medo foi como uma pedra quente em seu peito, quando pensou ver nos gigantescos loureiros, vultos em meio a forte neblina. Havia um pesado silêncio no bosque que se estendia incalculável e ela poderia jurar que nunca antes pés humanos cruzaram aquelas barreiras. Mas  houve uma vez que...  buscou o ar, repetindo a si mesma que talvez não fosse lenda. Talvez fosse sua única chance.


O frio do amanhecer aos poucos desaparecia e o ar parecia agora bafejado por murmúrios longínquos. Pequenas frestas de luz invadiam os galhos das árvores mais altas e desciam entrecortados, iluminado as trevas. Plantas desconhecidas estendiam-se espinhosas e rasgavam o tecido fino que protegia o corpo de Gwem. Teve vontade de desistir, de se entregar e deixar que o Rei cumprisse   sua maldição, mas logo, crescia dentro dela a sensação de que logo seria alcançada; desde que deixara a vila, caminhara sem descanso, mas os cavaleiros não desistiriam tão fácil. 

Mas ainda havia uma chance, talvez.

Olhos. Podia senti-los, espreitando-a desde que mergulhara naquele estranho universo. Havia um cheiro de incontáveis eras e criaturas desconhecidas desafiando quem ousasse adentrar as sombras mornas da floresta. Entretanto, por mais sombrios e escuros que fossem os caminhos, as árvores e a vegetação eram verdes, vívidas. Entre pedras lisas e outras cobertas por musgos esverdeados, descobriu um veio d’água que corria entre os pedregulhos; abaixou-se, bebendo com as mãos e reconhecendo ao redor, as ervas que seu povo sempre usava para curar.

A voz acariciante de um sonho interrompeu suas lembranças, trazendo em si promessas e delírios como os que a levaram até ali. Seguiu o curso do pequeno riacho, em busca do som fascinante e, logo chegou a uma clareira, a água formava uma cacimba transparente e um fiozinho estreito de águas claras finalizava o caminho.

E então, seus olhos se deslumbraram. 

Chegou devagar, com medo de assustá-la. Não notou as lágrimas descerem e o coração apertado, entre medo e alegria perante a presença suave da magia. Mais uma vez, buscou o ar e tentou falar. Mas apenas o silêncio permaneceu.

A criatura das águas sorriu. Os longos e amendoados cabelos confundindo-se, quando ela se movia, com as raízes frondosas e troncos gigantescos que brotavam na beira do rio. A pele era  transparente e os longos cílios em torno dos olhos dourados devassaram a alma da visitante. Em meio as águas claras, a moça deslizou e as escamas prateadas refletiram a luz do sol. Gotas de um arco-íris todo seu cobriram a manhã. 

Gwen ouviu o galope desesperado dos seus perseguidores quando mergulhou os pés na água cálida, mas já não teve pressa. Ao seu redor, outros rostos surgiam e mãos suaves a tocaram até que apenas o aconchego morno das águas a envolvesse.

Aquele não era mais o mundo no qual Gwen crescera. Para homens e mulheres como ela, viriam tempos difíceis. Alguns, ouviram o chamado das árvores, outros da terra; alguns, das cavernas e até mesmo do ar. No entanto, grande parte do seu povo já não conseguia ouvir, tomados pelo medo, ardiam o fim de sua essência. Não entendia com poderia ser tão errado apenas ser o que sempre fora. Machucada, fugira dos seus carrascos em busca de um sonho, de uma lenda dos mais antigos sábios. A camponesa ouvira a sagrada acolhida das águas. 

Estava livre.

Quando os cavaleiros chegaram ao lago, apenas águas plácidas os esperavam. Para o mundo, a magia das criaturas das águas seria apenas lenda. Para Gwen, o universo renascia.