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6 de nov. de 2011

Quando chorar é uma opção

Inadequate child - Berk Öztürk

A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras ditas, ouvidas ou escritas, têm poder de curar...

Para dias de chuva e outras melancolias
Ou quando chorar é uma opção

Tânia Souza

Não chore! Enfrente! Recomece! Ignore! Siga em frente! As coisas vão melhorar!  Erga a cabeça, é hora de recomeçar...

Palavras... algumas mais delicadas, feitas de vocábulos tecidos em abraços e lenços, outras, se fazem ásperas, vestem faces duras e frias e avisam: choro é para engolir. Lágrimas são sinais de fraqueza.

Palavras, palavras, palavras... e toda uma semântica de sobrevivência.

E a menina que teve o azar de nascer com um imenso e grave caso de sensibilidade um dia cresceu e descobriu que ser sensível demais não é uma boa estratégia. Quando a alma está estilhaçada, melhor sobrevive o rosto em máscara.

Depois, a mulher do agora descobriu que chorar é se por em evidência, chorar é permitir acesso ao mais íntimo da dor ou da alegria, e um dia, finalmente, ela abandonou a menina e aprendeu a não chorar. Por que chorar é ser vulnerável e ser vulnerável é... é ser vulnerável.
E isso, as vezes dói.

Então, ela se veste de forte. É seguro, mas extremamente solitário ali, no cantinho secreto onde a sensibilidade insiste em sobreviver. Alguns dias, os ombros doem, há decisões a serem tomadas, pessoas que pedem colo, nãos e sins esperando para serem ditos... ela bem sabe, isso se chama viver. Também sabe que alguns amigos gostam apenas de sorrisos, tristeza pode ser um interessante repelente. Há também os que se alimentam dela, tão opostos e tão iguais. Alguns poucos são para todas as horas, mas que raros são.

Há também algumas pessoas que podem, e gostam, de ferir as outras! E chorar ou não, não vai impedi-las. Mas ainda assim, persiste. Sorria e siga em frente, algumas vezes ela ainda repete o mantra, abismada consigo mesma por ensinar a mesma lição. Saber todas as cores da indiferença ela não sabe, pensa apenas em sobreviver.

Mas um dia, a força não adianta, o sorriso quer se esconder e os olhos não seguram mais. As lágrimas são assim, de certa forma, independentes. As dores guardadas, a indiferença, os resquícios de algumas tristezas são tocados por situações inesperadas. Assim como há vida, há morte. Assim como se está bem, pode ser estar enfermo, triste ou frágil.

E quase com vergonha, ela percebe que nada lhe resta a não ser chorar!

As lágrimas caem. O nariz fica vermelho, a boca inchada. E ela não tem onde se esconder. E o pior? Outras faces com lágrimas esperam por ela, pelo sorriso e pela força dela. Parece terrível. E é! Mas o sorriso se perdeu, ela sabe que velhas palavras soam vazias.

Então, ela descobre que chorar também é uma opção. Para disfarçar a dor, fala de si em terceira pessoa, mas está reaprendendo que lágrimas compartilhadas ainda doem, mas talvez assim, sejam mais fáceis de secar. Pois, por mais que tenha aprendido a esconder, a menina insistiu em sobreviver.

A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras, ditas, ouvidas ou escritas, tem poder de curar...

Mas algumas vezes, essas coisas desimportam e de um jeito ou de outro, é preciso continuar.  

8 de nov. de 2010

A rainha do inexorável - Por Tânia Souza


            Talvez seja ela, a morte, a responsável por um dos principais medos e mistérios que a humanidade enfrenta. Na história do ser humano, a morte é a aproximação do inexorável, oprimindo os sentidos e sentimentos. Pode ser temida, ignorada ou desejada. Liberdade ou prisão... O fim de um desperdício ou a concretização de um caminho bem feito. Inesperada, provocada ou procurada. Bela, triste ou violenta. Ser solitária ou compartilhada. Trazer alívio, saudade ou paz

15 de out. de 2009

Outubro-me


Outubro-me


Hoje, leitor que talvez venha, talvez nunca, frente ao texto que agora teço, hoje tens, leitor, palavras de garganta embargada em complexa perplexidade, em tela e teclado vou fugir de mim e me encontrar.

Por vez primeira eis-me aqui, sem disfarces, apenas divagando a face sem retoques que aflora-me e burla do que tão serena finjo ser


Há tantas sombras e tristezas já tão minhas, frente ao espelho eu as vejo e dos lápis negros e toques de pincéis e beijos de batons que espiam-me, gargalham-me murmúrios de ancestral melancolia nestes traços de menina de irmã de tia de professora de mulher de amante de amiga e filha... de apenas verso e poesia.


Não, eis que nestas palavras não tratarei de um conto insólito, de viagens surreais, poesia sombria ou o terror que espreita e espanto em contos inquietantes. Tampouco tens aqui, leitor, minha face menina/mulher/poetisa, da experiência concreta ou retro, dos versos ternos, de tolas nostalgias, de amores vãos e sonhos que desvendam-me em verborrágicas  quimeras. Hoje, apenas palavras em desatenta forma.


É outubro e há na cor da tarde tanto lirismo que reconheço enfim: outubros coisificam meus sentidos. Dos anos cumpridos, fiz mais um. No aniversário dessa moça que me olha do espelho, murmuram verbos não conjugados, sonhos desfeitos e refeitos, vitórias, conquistas, derrotas e eterno recomeço. Escolhas que fiz, outras a vida fez por mim. Lunes era quando o calendário marcou trinta e três, a face no espelho espantou-se, depois riu, ano I, ano II, ano III e assim assim talvez... chama-se viver. É outubro, dia das crianças e nasci assim talvez sempre menina, mas marcado em nostalgia o caminho estendia-me desde sempre.


É outubro e também o mês para se comemorar o dia dos professores. Há o que comemorar nessa tensa e terna e amada e dolorida premissa que de sou ouvida e talvez na palavra com que compartilho/ensino/aprendo exista algum sentido? 


Eis que aprenderei a sobreviver aos outubros... a sobreviver a essa moça/face triste que questiona-me no espelho e diz-me ainda, vai assim ser indecifrada nessa vida


ou 



.... em braços dados em dados incertos de lances e relances seguiremos novos caminhos?

Há um aroma de café espalhando-se pela casa e tantos labirintos, há lá fora esse sol atordoante de outubro e certa brisa irrequieta brinca nos ipês floridos... Quedo-me aqui, palavras - nem mais tão minhas – em íris inusitadas vão. Eu? Apenas vou ali brincar de viver. 

Fotos: Horto Florestal,  no centro de Campo Grande MS, by Tânia Souza em 14/10/2009.