15 de out de 2009

Outubro-me


Outubro-me


Hoje, leitor que talvez venha, talvez nunca, frente ao texto que agora teço, hoje tens, leitor, palavras de garganta embargada em complexa perplexidade, em tela e teclado vou fugir de mim e me encontrar.

Por vez primeira eis-me aqui, sem disfarces, apenas divagando a face sem retoques que aflora-me e burla do que tão serena finjo ser


Há tantas sombras e tristezas já tão minhas, frente ao espelho eu as vejo e dos lápis negros e toques de pincéis e beijos de batons que espiam-me, gargalham-me murmúrios de ancestral melancolia nestes traços de menina de irmã de tia de professora de mulher de amante de amiga e filha... de apenas verso e poesia.


Não, eis que nestas palavras não tratarei de um conto insólito, de viagens surreais, poesia sombria ou o terror que espreita e espanto em contos inquietantes. Tampouco tens aqui, leitor, minha face menina/mulher/poetisa, da experiência concreta ou retro, dos versos ternos, de tolas nostalgias, de amores vãos e sonhos que desvendam-me em verborrágicas  quimeras. Hoje, apenas palavras em desatenta forma.


É outubro e há na cor da tarde tanto lirismo que reconheço enfim: outubros coisificam meus sentidos. Dos anos cumpridos, fiz mais um. No aniversário dessa moça que me olha do espelho, murmuram verbos não conjugados, sonhos desfeitos e refeitos, vitórias, conquistas, derrotas e eterno recomeço. Escolhas que fiz, outras a vida fez por mim. Lunes era quando o calendário marcou trinta e três, a face no espelho espantou-se, depois riu, ano I, ano II, ano III e assim assim talvez... chama-se viver. É outubro, dia das crianças e nasci assim talvez sempre menina, mas marcado em nostalgia o caminho estendia-me desde sempre.


É outubro e também o mês para se comemorar o dia dos professores. Há o que comemorar nessa tensa e terna e amada e dolorida premissa que de sou ouvida e talvez na palavra com que compartilho/ensino/aprendo exista algum sentido? 


Eis que aprenderei a sobreviver aos outubros... a sobreviver a essa moça/face triste que questiona-me no espelho e diz-me ainda, vai assim ser indecifrada nessa vida


ou 



.... em braços dados em dados incertos de lances e relances seguiremos novos caminhos?

Há um aroma de café espalhando-se pela casa e tantos labirintos, há lá fora esse sol atordoante de outubro e certa brisa irrequieta brinca nos ipês floridos... Quedo-me aqui, palavras - nem mais tão minhas – em íris inusitadas vão. Eu? Apenas vou ali brincar de viver. 

Fotos: Horto Florestal,  no centro de Campo Grande MS, by Tânia Souza em 14/10/2009.


3 comentários:

  1. Olha que cousa, tem selo pra vc no Mundo de Fantas!

    É super lindo!

    =)

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  2. Oi Tânia, tudo bom? Não sei se vc é de São Paulo, mas se for, está convidada para o lançamento do livro que estou participando, o Galeria do Sobrenatural. Detalhes do evento no endereço abaixo:

    http://luamortal.blogspot.com/2009/10/nova-participacao-literaria-dessa-vez.html

    Vc não tem banner? Eu queria divulgar seu blog nos meus...

    Abraços!

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  3. Nossa, Tânia, estava aqui, tocando "Travessuras" do Oswaldo Montenegro, quando comecei a ler este texto lindo e junto com ele, terminou a música, e foi um casamento de som e palavras, perfeito.

    Parabéns pela sensibilidade que vive em você, não a recuse... jamais...

    Te adoro muito, e que venham muitos outubros repletos da luz que vc tem.

    bjooos

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