12 de abr de 2011

Filho da escuridão



Não deixe de conferir, no blog Fantasia & Terror, do meu amigo , o conto  Sangue Maldito ,  os primeiros instantes de sombra e dor deste filho da escuridão. 


Filho da escuridão

Por Tânia Souza


Nasci no dia de minha morte!
Ah, nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?
Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse. 

11 de abr de 2011

Flores da madrugada - Tânia Souza


            As flores murchavam com o frio da noite! O homem de smoking abriu a porta do carro para o salto agulha, em tom prata, tocar o asfalto e a ruiva descer. Angélica jamais vira mulher tão bonita. “Uma flor para a moça senhor?” Ele olhou para a menina, os ossos da vendedora de flores apareciam sob a roupa e os lábios tremiam. Colocou a mão no bolso, mas foi interrompido. “Não seja tolo mon amour, essa raça prolifera. Guarde seus presentes para mim...” E riu. O moço assentiu para a dama, enquanto Angélica secava uma lágrima. Pensou no pai violento e se encostou à parede esperando as horas passarem. Como as flores, ela murchava. 

           Despertou na madrugada com a dor, o homem de olhos vermelhos a atacava, porém não lutou.  Sorveu com avidez algo quente derramado em seus lábios e o corpo entrou em frenesi. Desmaiando, ouviu “este presente é seu, mon chéri
 
Acordou com a fome e feito bicho, saltou. Numa sala ricamente decorada, o rapaz olhava para ela. Sobre um pequeno divã, a ruiva desmaiada, o pescoço ferido deixava o sangue escorrer pela pele branca, o sapato prata largado no chão. Ele disse apenas ”Beba, minha querida!” E Angélica não pensou duas vezes, cravando os dentes no vermelho quente, sugando até sentir vertigem. O homem se aproximou e, de uma vez, cortou a cabeça da dama. “Nunca se esqueça de terminar o serviço. Essa raça prolifera... não merece nosso dom”. 

Ele sorriu, mostrando os dentes afiados, Angélica sorriu de volta. Um traço cruel no rosto angelical. Sempre fora uma criatura da noite e enfim, encontrara seu lar.
Tânia Souza

Conto vencedor do II CONCURSO DE MINI-CONTOS DO MASMORRA DO TERROR, promovido por Lino França Jr. 


9 de abr de 2011

Aroma de estrelas

Aroma de estrelas
Por Tânia Souza



Tudo é cinza e frio. Meus passos ecoam neste imenso deserto. Por onde olho, vejo apenas vastidão de pedras e cavernas. Em uma delas, resido. Não se trata de uma caverna qualquer. Foi adaptada por mim. Contem o que necessito para permanecer em ordem e funcionando. Aqui, os dias e as noites são longos. Não se ouve o lamento de animais, não se ouve sons, ruídos, não se vê movimento algum além de poeira cósmica ocasional. Estamos no planeta Sunriand. Na verdade, um planetóide de ricos minérios, mas instável para a sobrevivência humana. Não há água em Sunriand. Não há comida. Não há vida. Apenas eu e a carcaça de outras máquinas que deixaram de funcionar.

Um nome... Sim, eu tive um nome, mas ele se esvai com outras lembranças e não consigo buscá-lo nos desenhos do passado. Outrora fui cidadã, hoje sou propriedade do estado, sou uma prisioneira. Estou cumprindo pena em Sunriand. Não há absolutamente ninguém aqui. Teoricamente, também não estou aqui.