30 de jan de 2010

Ausência













Ausência
 Por Tânia Souza

Do vinho derramado
Só restam cacos
                        
Palavras trincadas
                       Notas sem vestígios
Asas dilaceradas

Taças desfeitas
Soluços contidos
De verbos vãos

Murmuram rubras
Canções de outrora
Lejanas declarações

É sábado
E já não vejo o sol surgir
É sábado e o sol talvez brilhe
Não para mim

Queda-me o vazio
No escuro do quarto
um abismo
o vácuo 

Infindo labirinto
Olhos perdidos em noite blues

Ai que triste
E desolada composição
As telhas desfazem-se
Serenatas de uma chuva eterna

Desbotadas e sofridas
Nossas dores tatuadas sangram

Rubro vinho desfalece
 E pálido derrama-se
     
Nas velhas paredes
    Turvas rosas choram
   Em sombra e solidão

Em (in)trincados cristais
 Coração entrelaçado vai

N’alguma madrugada
Quando a viola de cocho chora
Meus cílios brincam de orvalho

Cacos cristalinos de nos dois
E um amanhecer que não vem

27 de jan de 2010

Obscuro Amor - Parte III


Obscuro Amor 

Parte III

Assim foram aqueles agônicos meses até o escuro invadir a manhã e o nada persistir. Ana estava prometida e em breve despedir-se-ia. Quem dera, ah, a mim, um simples artesão, ser o dono de sua beleza e afeto.
Delatei meu amor por fim.
Ela riu quando declarei-me, um riso liquido, divertido, como quem espera há tempos por um gracejo mórbido. No seu riso cristalino disse-me que estava noiva, prometida ao conde F. e, em breve seguiria para Paris e nunca mais eu a veria.

Cinzas
















Cinzas!
Os dias, em cinzas envolvem-se.
Ruas cinzas!
Casas e prédios em cinzas!
Busco e só encontro cinzas...

O tato:
Encontra cinzas

Os olhos:
Nublam-se de cinzas

Os aromas:
Sufocam tomados de cinzas.

Ouço:
Fagulhas e cinzas.

Provo:
O des-gosto em cinzas.

E percorro em pressa descaminhos
O som alude ao chamado
E chamo: chamas!
Procuro, sem lume, em cinzas.

Mundo sem cores,
Tela cinza onde não me encontro
Desfeitos pontos,
Cores furtadas de um dia lejano...

Furtivos movimentos
Imperceptíveis rumores
Restam cinzas

E em cinzas converte-se meu coração 

Em cinzas morre a palavra
Morre a palavra no grafite cinza


E quando no fogo o papel transmite-se 
E todo verso
         E toda rima
                 E tola sina
                                    É de novo:

              Apenas cinzas. 
Ah, penas cinzas...

18 de jan de 2010

Obscuro Amor - Parte II

Obscuro amor
Por Tânia Souza  

Parte II

Eis um caminho traçado sem surpresas ou grandes planos, uma existência opaca.  Entretanto, percebi que toda claridade fora até então ausente em minha existência e no olhar daquela menina estava a cura para minha alma. A verdadeira luz revelou-se naquele dia, o que restara nas lembranças fora a escuridão.
 Havia em meus ouvidos estampidos, rudes tambores do meu pobre coração... de tal forma ensurdecedores que minhas vistas quedaram-se turvas e, por fim, foram seus olhos, olhos fixos em mim, olhos iluminados, olhos ternos, sedutores e convidativos que  trouxeram-me luz.  Eu a vi! Eu a desejei! E eu a teria!
Diáfana Ana!

17 de jan de 2010

Obscuro amor - Por Tânia Souza

Obscuro amor
Por Tânia Souza

I

Das mais remotas sagas o amor traz consigo o peso fúnebre de guerras e vinganças, vitórias e derrotas. Por amor marcou-se o solo do mundo com oceanos de lágrimas. Por amor se morre, por amor se mata... por amor enlouquece o homem, insana torna-se a mulher. E desse mal eu fora ferido: era amor, entanto era muito mais desejo. Uma ânsia, uma angústia que corrói a alma e escurece o olhar de sombras tantas só iluminadas perante o ser que amamos, amamos e muitas vezes amamos.

Amor! Desejo! Obsessão! Não o amor de Romeu por Julieta, porém a febre angustiada de Otelo, capaz de ceifar nas mãos amorosas a pérola amada por louco ciúme. Amor que aprisiona de  tal modo que morrer, ah, morrer já não representa a liberdade, pois as sombras nefastas do além não conseguem abrandá-lo.

13 de jan de 2010

Um pôr-do-sol sangrando no azul


Um pôr-do-sol sangrando no azul

Aromas da tarde indo embora
  E num ávido deslumbre
            Um pôr-do-sol latejante   
 Soluçando-me de vermelho

Em pálido azul os restos do dia
  Murmuram da vida segredos rubros  
      
        Sozinha, estou tão sozinha
               Queimo em fátuo fogo
       Fecho os olhos rasos
E lágrimas não deslizadas
             beijam meus cílios largos

     O sol regendo orquestra aquarelal      
Desvenda mágica e eterna sabedoria
 
Parte sangrando todos os dias
  E vem resplandecente a cada manhã

Tânia Souza

7 de jan de 2010

Contos Grotescos apresenta finalistas do I Concurso Literário - Prêmio Edgar Allan Poe


 





1 - VISÃO – Miguel Luís Santos Vieira – Lisboa (PT).
2 - ENGANANDO A MORTE – João Manuel da Silva Rogaciano – Alverca do Ribatejo (PT).
3 - SILÊNCIO – Jorge Luiz Martins Paredes – São José dos Campos – SP (BR).
4 - A MENINA DO PAPÁ - Bruno Jorge Lírio Simões Pereira – Lisboa (PT).
5 - SET – Bárbara Lia Soares - Curitiba –PR (BR).
6 - O GORDO – Igor Christiano Buys – Rio de Janeiro – RJ (BR)
7 – O FILHO IDEAL – Ubiratan Campana Peleteiro – Vitória –ES (BR)
8 - A GEOMETRIA DO SER - Luciano Marinho de Barros e Souza – Recife –PE (BR)
9 - OVÍPARAS – Pedro Diniz de Araújo Franco - Rio de janeiro – RJ (BR).
10 – AMIGOS - João Mário Algarvio Dias Henriques - Funchal (PT).

 Parabéns aos vencedores e ao sitio Contos Grotescos pelo concurso, que venham outros!!

2 de jan de 2010

Ela - Por Luiz Poleto



Ela


Por Luiz Poleto

Sentada naquele banco, ela contemplava a imensidão do lago à sua frente. A tonalidade escura parecia exercer algum tipo de fascínio nela, que todo dia estava ali, sentada. Ao fundo, no horizonte, a imensa cadeia de montanhas rodeava o lago, quase formando uma prisão natural.

Todos os dias, algumas pessoas chegavam, algumas parecendo desnorteadas, e paravam na beira do lago. E ela levantava, fazia um sinal, e as pessoas a acompanhavam. Algumas relutavam, mas por fim, por não terem lugar aonde ir naquele imenso deserto, acabavam indo também.

Sem dar uma palavra, ela as guiava até a outra extremidade do lago, onde a água parecia mais escura do que antes, e, em movimento das mãos, as águas se afastavam – como em um gesto bíblico – e revelavam uma escadaria, que descia para dentro do lago até onde a vista alcançava.