2 de jan de 2010

Ela - Por Luiz Poleto



Ela


Por Luiz Poleto

Sentada naquele banco, ela contemplava a imensidão do lago à sua frente. A tonalidade escura parecia exercer algum tipo de fascínio nela, que todo dia estava ali, sentada. Ao fundo, no horizonte, a imensa cadeia de montanhas rodeava o lago, quase formando uma prisão natural.

Todos os dias, algumas pessoas chegavam, algumas parecendo desnorteadas, e paravam na beira do lago. E ela levantava, fazia um sinal, e as pessoas a acompanhavam. Algumas relutavam, mas por fim, por não terem lugar aonde ir naquele imenso deserto, acabavam indo também.

Sem dar uma palavra, ela as guiava até a outra extremidade do lago, onde a água parecia mais escura do que antes, e, em movimento das mãos, as águas se afastavam – como em um gesto bíblico – e revelavam uma escadaria, que descia para dentro do lago até onde a vista alcançava.

Ela descia, seguida pelas pessoas, e durante horas eles desciam. O cheiro pútrido estava sempre presente, e a sensação de calor aumentava a cada degrau descido. Algumas pessoas se assustavam e tentavam voltar, mas era inútil pois, quando ela descia, as águas se fechavam. Depois de horas de descida, o terror já era visível na maioria das pessoas; ela já estava acostumada, e nunca tinha qualquer expressão na face.
Ao atingirem o último degrau, após dias de descida, apenas uma pequena varanda de terra se fazia presente, onde cabiam no máximo dez pessoas. Neste ponto, a escuridão era total e nada se via além da lanterna que ela segurava para lhes guiar o caminho. O cheiro era insuportável, como se um cadáver estivesse caminhando junto a eles – e algumas vezes eles tinham a sensação de que realmente havia um entre ele.
Quando chegavam ali, era a parte mais difícil: ela fazia um sinal para que pulassem, mas quase todos se recusavam. Apenas um ou outro o faziam sem reclamar, mas em sua maioria eles não pulavam, o que a obrigava a empurrá-los. Por alguma razão, nunca conseguiam levar ela junto.
E quando pulava, era sempre a mesma coisa, tudo parecia iluminado pelo fogo que emanava do fundo do abismo em que pularam e, durante a queda, diversos braços sem corpos tentavam agarrá-los, e muitas faces com expressões de sofrimento e tristeza olhavam enquanto caiam. Ao final, descobriam que não havia o fim do abismo, e acabam presos por alguns daqueles braços; e choravam e gritavam enquanto eram devorados vivos por aquelas almas famintas, para, no final, juntarem-se a eles nas paredes do abismo, aguardando que novas vítimas caíssem pelo abismo.

E ela, após isso, subia as escadas de volta para o lago, onde sentava-se no banco, aguardando os próximos visitantes.

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