31 de out de 2010

O BEIJO - Por Susana Lorena


         Um conto envolvente, que transporta o leitor para outras eras, onde perseguições, magia, fanatismo e seduções decidiam destinos. Leia e viaje para um universo distante neste conto deliciosamente sombrio de Susana Lorena.


O BEIJO

I

      — Ela não deve permanecer aqui! – Ele repetiu a frase mais uma vez.
      — Você se refere a um enterro cristão? – O padre perguntou incrédulo.
      — Não! Eu digo na floresta ao norte da cidade.
      Um silêncio reinou na sala onde se reunia quase todos os aldeões da comunidade. A pauta da vez: Um jovem, Lúcio, queria impedir que uma jovem, Serena, fosse queimada sob a acusação de bruxaria. Não que ele quisesse que ela fosse poupada. Sua idéia era de que a moça fosse enforcada e enterrada, longe da vila, mais precisamente dentro da densa floresta que cercava três quartos do lugar. Tudo aconteceria no dia seguinte e as coisas estavam longe de acabar.
      Lúcio tentou convencer a todos de todas as maneiras:
      — Se nós a queimarmos, suas cinzas continuaram aqui. – disse ele.
      — E que mal as cinzas de uma bruxa morta fariam a nós? – Gritou uma senhora na última fileira. Um murmúrio geral deu mostras de concordância.


      Lúcio abaixou a cabeça. Não queria dizer a verdade. Não queria admitir que todo o trabalho que estava tendo era por culpa dos sonhos que tivera. Naquela noite não conseguira dormir. Sonhos diversos, em que Serena falava com ele e dizia-lhe que ela não poderia ser queimada. A jovem o torturava asseverando-lhe que se fosse queimada, todos na cidade sofreriam mais do que ele estava sofrendo naquele momento. Lúcio sabia o tempo todo que se tratava de um sonho, mas não conseguia acordar. Serena afirmara que ele acordaria quando ela quisesse ou poderia muito bem não acordar. Era ele quem escolhia. No sonho ele tinha cordas que amarravam seus pulsos e quando acordou naquela manhã as marcas das cordas ainda estavam lá, vermelhas e a pele esfolada como se estivesse amarrado por um longo tempo. Havia sinais de queimaduras em sua barriga e longos lanhos de chicotadas em suas costas. Pelo seu próprio bem, deveria convencê-los de que a suposta feiticeira não poderia ser queimada. Não sabia se conseguiria mentir na frente de toda a cidade... Mas podia disfarçar a verdade.
      — Eu tive um sonho. Uma visão. – Disse o jovem finalmente.
      Todos ali se manifestaram ao mesmo tempo. O Padre tentava acalmar os ânimos.
      — Esperem, esperem. – interrompeu o sacerdote muito curioso. – Vamos ouvir o que o jovem Lúcio tem a dizer sobre isso.
      Lúcio limpou a garganta e começou a disfarçar a verdade.
      — Ontem à noite eu tive um sonho. Nele um anjo falava comigo. Dizia que não queria ver uma comunidade de fiéis tão devotados cometerem um erro tão grande. - Lúcio tentava parecer tomado de uma grande emoção devido à revelação - Disse que se a queimássemos as suas cinzas permaneceriam em nosso solo. E essas cinzas impuras trariam o mal para nós. Este mensageiro celestial afirmou que a única maneira de tirá-la daqui seria enforcando-a. Devolvendo seu corpo inteiro para a floresta, onde os demônios a levarão para as trevas de onde veio.
      O silêncio reinou naquele lugar. Todos se olhavam espantados. Ninguém conseguia acreditar no que tinha ouvido. Todos comentavam baixo entre si.
      O padre foi o primeiro a se pronunciar:
      — Bem, irmãos... - Tirou os óculos e limpou-os na batina. – O que nós ouvimos aqui é uma experiência única. Podemos nos considerar um povo abençoado por Deus. Se o Nosso Senhor se deu ao trabalho de mandar um de seus anjos nos avisar do mal que essa mulher nos causará, nós somos realmente um povo do qual Ele se agrada.
      O sacerdote juntou as mãos em frente ao corpo.
      — Irmão Lúcio, aproxime-se.
      Lúcio andou até o clérigo e se postou ao seu lado. Agora se referindo a toda a congregação o sacerdote disse:
      — Irmãos! Oremos! Vamos agradecer por essa graça!
      O padre conduziu a oração em altos brados. Lúcio, que estava ao seu lado de cabeça baixa e com as mãos entrelaçadas na altura da barriga, teve que conter o seu espanto quando viu que as marcas de cordas já não estavam nos seus pulsos. Tentou se mexer sem que ninguém reparasse. Percebeu que a dor das chicotadas nas costas havia sumido. Em meio às palavras empolgadas do padre, Lúcio pode ouvir uma risada que reconhecia muito bem. Era Serena! Pela falta de reação dos outros, só ele mesmo ouviu aquilo. Aquela risada esganiçada que lhe causava um frio na espinha. A risada cessou de repente, assim como surgiu. Quando o jovem achou que podia respirar aliviado, ouviu um sussurro, como se a bela feiticeira de seus sonhos estivesse de pé ao seu lado, com os lábios colados ao seu ouvido. O sussurro dizia:
      — Muito bem...
II
       A mulher se arrumava calmamente. Apertou os cordões atrás do espartilho, bateu a poeira das botas que usava, jogou a cabeça para trás e sacudiu os longos cabelos negros como as asas de um corvo. Seus olhos estavam em paz, olhando para fora da janela gradeada. Quem a visse assim, nunca imaginaria que estivesse a poucos minutos de ser enforcada. A sua prisão era improvisada. Ficava em baixo da sacristia. Um lugar bem parecido com uma masmorra, mas não tão ameaçador. A janela pela qual olhava ficava rente ao chão do lado de fora. Não podia deixar de ter pensamentos perversos sobre os motivos que levaram o padre a ter aquele lugar mantido ali.
      Ouviu a porta do andar de cima ranger e depois passos na escada. O padre descia com uma bíblia e uma cruz na mão. Um sorriso brincou em seus lábios “será que ele pensa que eu sou um vampiro?”.
      O padre abriu a bíblia e beijou a cruz. Começou com a sua ladainha. A cabeça de Serena fervilhava de ansiedade. Não estava com paciência para aturar aquilo.
      — Hei! – Disse ao sacerdote – Você não quer saber se eu me arrependo de meus pecados antes de começar a encomendar minha alma?
      O padre a olhou, incrédulo, por cima dos óculos:
      — E você se arrepende?
      — HÁ! – Serena soltou uma sonora risada – Claro que não! – Se apoiou na grade para se aproximar do padre. – Então, acho que você está perdendo o seu tempo, não está? Não use o nome do seu Senhor em vão. Foi Ele mesmo que disse.
      O padre fechou a bíblia com um estalo. Tirou os óculos com raiva.
      — O que você pensa que está fazendo? Por acaso tem idéia do que está para acontecer? – O padre gritou agitando a bíblia.
      — Sim. – Serena disse com toda a calma – Por isso estou tentando fazer com que nenhum de nós perca seu precioso tempo. – E deu uma piscadela para o padre.
      O velho religioso respirou fundo, tentando não perder mais a calma. Olhou para o chão procurando alguma coisa. Jogada perto da parede estava uma corda já gasta pelo tempo. Colocou a bíblia em um bolso da batina e deixou a cruz recostada na parede quando se abaixou para pegar a corda.
      — Vire-se de costas. – disse o sacerdote.
      Ela se virou e sentiu as cordas sendo amarradas firmemente ao seu pulso. Estava a minutos de ser enforcada, mas não poderia deixar de perturbá-lo:
      — Hmmm... Padre... – usou a sua voz mais sensual - achei que você tivesse feito voto de castidade.
      Estava de costas e não tinha como vê-lo. Mas de algum modo sabia que com esse comentário, o velho havia corado até a raiz dos cabelos. Ele a guiou até as escadas. Serena subiu lentamente e fez a sua última brincadeira com o padre:
      — Você não credita realmente que eu sou uma bruxa, não é?
      — C - Como? – O padre não se sentiu confortável com essa pergunta. – Por que diz isso?
      Serena sorriu:
      — Se acreditasse... acharia mesmo que essas cordas seriam suficientes para me impedir?
      O padre olhou para as cordas. Tão velhas e gastas. Se realmente fosse uma bruxa ela se soltaria facilmente dali. Mas admitir isso na frente do povo, dizer que estava errado. Nunca. A condenada era uma bruxa, sim. Como diria que seus anos dedicados à fé estavam errados? O padre nunca saberia se estava diante de uma verdadeira bruxa. Nunca saberia se outras que foram condenadas também não eram. Tinha nesse momento o assassinato de muitos inocentes nas suas costas. Esse pensamento o atormentaria para toda a vida. E assim, sem que percebesse, Serena jogou um feitiço nele. O clérigo se culparia pelo resto da vida por ter mandado essa jovem para a forca.
      Quando os dois saíram da sacristia dois jovens a esperavam. Um desses jovens, Serena já conhecia muito bem. Deu um passo a frente em sua direção:
      — Sabia que conseguiria. – Disse bem baixo para que só Lúcio ouvisse.
      O jovem olhou desconfiado para os lados para ter certeza disso.
      — Agora... – continuou ela – o seu prêmio.
      Quase que junto ao fim de sua frase, Serena se atirou sobre ele. Tinham quase a mesma altura e não houve dificuldade para ela alcançar a boca do seu cúmplice. A reação de Lúcio foi a esperada, segurou-a pela cintura retribuindo-lhe o beijo. Um beijo apaixonado de dois amantes em uma despedida. Todos na cidade já estavam reunidos ali, e todos pararam diante daquela cena. O beijo acabou quando Serena descolou seus lábios dos de Lúcio dizendo:
      — Acho que temos algo a fazer agora.
      O jovem ainda estava meio atordoado, sem saber como reagir. Olhava incrédulo para Serena. Deveria escoltá-la até a forca, mas isso não foi preciso. Quando ele conseguiu se mover novamente, saindo do seu estado de estupefação, ela já estava na metade da escada que levava ao patíbulo. Apressou-se para alcançá-la. Ficou ao seu lado no tablado. A jovem estava sobre a marca na madeira que indicava o alçapão. Foi Lúcio quem colocou a corda em seu pescoço enquanto Serena olhava para longe. Seus olhos pareciam não estar mais ali.
      O padre fazia a sua prece em voz alta, fora do cadafalso. Ele perguntou se a condenada queria proferir suas últimas palavras. Nenhuma palavra da parte dela. O velho não pode, ainda, deixar de respirar aliviado. Tinha medo de que a criatura fizesse mais alguma piadinha ou algum comentário como os que fizera na prisão. Diante do silêncio, ele deu por encerrada a cerimônia de execução.
      — Já que não tem nada a dizer, que se cumpra o seu destino. Que Deus tenha piedade de sua alma.
      Lúcio puxou a alavanca que fez o alçapão do tablado cair. O corpo dela despencou. Alguns desviaram os rostos na multidão. Outros aplaudiram. Lúcio apenas a olhou cair. Sentiu um frio na espinha quando seu corpo sumiu de sua vista. Um vazio tomou conta do seu estômago, algo que deveria ser sentido à beira de um penhasco. Sentiu que ali, com um simples movimento de braço, havia selado não só o destino daquela moça, mas o seu próprio. Algo estranho havia acontecido naquele enforcamento. Muito estranho! Quando a corda ficou completamente esticada, antes que o laço lhe quebrasse o pescoço, o corpo dela parecia não ter um sopro de vida pelo que lutar em agonia, como se ele houvesse pendurado ali uma pessoa já morta.

III

      Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir. Revirou-se no leito por algumas horas. O sono não vinha. Por volta de meia noite, resolveu sair da cama. Abriu a janela do quarto para conseguir se refrescar com algum vento, já que o suor encharcava a sua roupa de dormir. Ao abrir a janela, o brilho fugaz da lua cheia invadiu seu quarto. Não foi o vento, mas a luminosidade que lhe trouxe o alívio de que precisava. Respirou fundo apoiado na janela. Colocou rapidamente uma roupa, pegou seu candeeiro e saiu pela rua.
      Tudo estava muito escuro e o candeeiro não fornecia a claridade suficiente para andar com segurança. Mas a lua era tudo de que precisava. Sua cabeça fervilhava com os acontecimentos do dia que se passou. Naquela manhã havia puxado a alavanca que enforcou Serena, retirado seu corpo sem vida da corda e, junto com mais dois jovens do vilarejo, a levou para uma clareira no meio da floresta. Cavaram um buraco na terra fofa e a deixaram lá. Para que, segundo suas próprias palavras, os demônios a levassem para longe da vila. Agora imaginava se não era essa a vontade dela, quando o aprisionou em seu sonho e o torturou. Será que a desculpa que deu para a população não acabaria sendo a verdade?
      Lúcio andava a esmo sem saber para onde ia. Mas seus passos decididos, e ao mesmo tempo cambaleantes, faziam parecer que sabia exatamente seu destino. Apertava os olhos tentando se acostumar a pouca luz. Fazendo isso pode reconhecer a certa distância uma cabana mal cuidada. Lembrou-se de quando voltaram da floresta. Carregara uma das pás que usou para enterrar Serena. Lembrava de tê-la jogado de lado no chão assim que passou pela cabana. Enquanto andava em direção ao casebre decrépito, tentou divisar no chão o formato da pá. Teve que andar curvado, aproximando o candeeiro da relva espessa, para conseguir encontrá-la. Pegou-a com naturalidade e a apoiou no ombro.
      Logo atrás da cabana, começava a floresta. E foi ali que ele entrou.
      A luz da lua era filtrada pelas copas das árvores. Ele podia ver apenas alguns pontos iluminados nos troncos e no chão. Esses pontos não ajudavam em nada a desviar das raízes das árvores e de galhos caídos. Usava a pá como uma bengala para ajudar a andar. Mesmo assim tropeçava com freqüência. Chocava-se com os ombros nos troncos das árvores. Largou a pá algumas vezes para aparar a queda com as mãos. Isso lhe causou alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
      Os sons da floresta entravam em sua cabeça com força. Era como se cada pequeno ruído viesse de todos os lados possíveis. O rastejar das criaturas passando por ele não faziam com que ele parasse. O bater de asas de alguma ave, ou talvez um morcego, passou rente ao topo de sua cabeça. Ouviu um resmonear animalesco, suave, vindo de longe. Pelo som, não conseguiu precisar o tamanho do animal. Poderia ser desde um pequeno mamífero inofensivo até... Nem queria pensar.
      Mas isso não importava.
      Seguiu com a determinação de um desbravador por aquela floresta. Nada era capaz de impedi-lo. Mas de onde vinha aquela força? O que fazia com que continuasse sem nem bem saber por onde andava? Sentia que uma força o guiava. Sim! Disto tinha certeza! Uma força maior que ele, que estava além de qualquer explicação. Tinha alguma idéia de onde ia. Mas não era devido a nenhuma razão que lhe fosse compreensível. Apenas uma sensação de que nada poderia fazer ali, a não ser...
      De repente algo em meio às árvores lhe chamou atenção. Uma claridade estranha em meio a tanta escuridão. Tomou direção, sedento, rumo àquele local que espargia ramificações tênues de luz. Parecia satisfeito em vê-lo, como se o tivesse esperando desde o momento em que pôs os pés fora dos limites da vila. Afastou uma cortina fina de galhos e folhas com a pá. E pode ver o que era aquela luz mortiça dentro da noite. Era uma grande clareira, que formava quase que um círculo perfeito circundado pelas árvores. Se alguém perguntasse, poderia dizer que, além de tudo, o brilho lunar parecia mais intenso ali. Colocou o candeeiro, que surpreendentemente ainda estava aceso depois de tantas dificuldades na floresta, no chão. Foi até o meio da clareira, aonde um monte de terra se diferenciava de todo o resto do terreno. É claro que sim, aquela terra fora revirada mais cedo. Um corpo fora enterrado ali. E ali ainda permanecia. Sem pensar muito no que pretendia fazer, porque para ele era muito óbvio, Lúcio fincou a pá na terra, tirou o primeiro punhado e o atirou para trás
      Praticamente não piscava enquanto fazia o seu trabalho. Apenas olhava fixamente para o barro revolvido concentrando-se em cada monte de terra que jogava para trás. De repente algo o fez diminuir a velocidade em que estava cavando. Retirou punhados menores de terra, com mais cuidado do que antes. Decidiu, naquele momento, que o uso da pá não era mais necessário e pulou dentro do buraco. Ajoelhou-se no chão e começou a afastar a terra com as mãos. Logo ele encontrou uma ponta de tecido preto sabendo o quanto faltava para desenterrá-la. Trabalhou mais rápido com as mãos até que conseguiu afastar terra o suficiente para erguê-la do chão. Colocou os dois braços por debaixo do corpo e a pegou no colo. Colocou-a na beira da cova e saiu pelo outro lado. Deu a volta e a ergueu novamente. Olhou em volta descobrindo um monte de folhas secas caídas, das quais foi de encontro e a acomodou naquela cama improvisada.
      Lúcio a olhava incrédulo! Havia feito todo aquele caminho, tido todo aquele trabalho quase que inconscientemente. Não pensou nem por um momento no que estava fazendo, em qual era a finalidade daquilo tudo. E se desesperava porque continuava sem saber. Sufocou os gritos, nos recônditos mais profundos de sua mente, que pediam por um pouco de lucidez e se deixou levar por aquele instinto que o conduzira até onde estava. Ajoelhou-se e desenrolou o tecido que a envolvia. Lá estava Serena, mais branca do que nunca, apresentando na alvura da pele um contraste violento com o preto de seus cabelos. Um detalhe avultava-se em seus traços fisionômicos! Lúcio não tivera oportunidade de ver muitos cadáveres em sua vida, mas desconfiava de que os lábios dela deveriam estar roxos, o que não acontecia. Estavam vermelhos, cheios, viçosos, como se ela tivesse acabado de cobri-los com batom. Ela era uma moça bonita, mas algo mais aconteceu quando ela morreu. Serena parecia irresistível, seus lábios convidativos estavam entreabertos, deixando entrever um pedaço bem pequeno de seus dentes muito brancos.
      Lúcio susteve a respiração diante da visão dela. Ela estava estonteante. Duas coisas passaram pela cabeça dele nesse momento. Uma delas era uma sensação de que viera até ali para devolver alguma coisa. A outra era uma vontade incontrolável de beijá-la. Não sabia ao que se devia o primeiro. Mas não resistiu ao segundo.
      Primeiro levemente. Depois pressionou mais os lábios contra os dela. Percebeu algo que não deveria estar acontecendo, primeiro ignorou a sensação... Mas depois não pode deixar de notar: Os lábios se moviam sob os seus. Abriu os olhos e se afastou sobressaltado. Os olhos dela estavam abertos fitando o céu acima da clareira. Não havia expressão neles. Eram os mesmos olhos sem vida que subiram à forca. E mais uma vez ele sentiu o mesmo impulso de beijá-la. Curvou-se novamente, e agora, a resposta dela era mais evidente. Ele podia senti-la retribuindo o beijo. Sentia o movimento dos lábios dela muito melhor agora. Ouviu um murmúrio, como se desejasse falar alguma coisa. Afastou-se por um momento:
      — Disse alguma coisa?- Perguntou ele imaginando o quão surreal era perguntar isso a uma pessoa que estava morta há apenas alguns segundos.
       — Mais... – Respondeu ela. Sua voz era pouco mais do que um sussurro deixando transparecer uma fraqueza contrária ao seu próximo movimento.
      Serena mais do que rapidamente, ergueu as mãos e segurou o rosto dele contra o dela. O beijava com fúria e violência. Lúcio não tentou se soltar e aproveitava cada momento daquele beijo doce. Até que reparou uma coisa, um pouco tarde demais: Ele estava ficando sem ar. Tentou empurrá-la gentilmente, mas ela não cedeu um milímetro se quer. Ele imprimiu mais força da vez seguinte, também sem sucesso. Serena parecia ter voltado dos mortos com uma força descomunal. Cada segundo que passavam com os lábios colados era um martírio. Sentiu todo o ar sendo sugado se seus pulmões. A mulher antes morta continuava deitada segurando o rosto dele colado ao seu com naturalidade, enquanto ele tentava desvencilhar-se do aperto dela.
      Aos poucos Lúcio foi perdendo as forças e lutando menos contra ela. Ainda apertava as mãos dela tentando tirá-las quando ela finalmente o soltou. Ele rolou para o lado ainda fraco. Apesar de estar livre, ainda não conseguia puxar o ar de volta para seus pulmões. Ficou se contorcendo no chão com as mãos agarradas ao pescoço como se aquilo fosse fazê-lo voltar a respirar. Suas unhas deixavam marcas vermelhas em sua pele na sua agonia por um suspiro.
      Serena se sentou onde estava. Olhou em volta piscando, tentando acostumar os olhos a luz depois de tantas horas na mais absoluta escuridão. Um leve sorriso começou a se formar em seus lábios quando sentiu um toque em seu braço. Olhou para o lado e viu Lúcio. Suas mãos crispadas tentavam alcançá-la. Seus olhos injetados de sangue devido a alguns vasos rompidos suplicavam por ar.
       — Me desculpe. – Disse Serena tranqüila – Eu havia me esquecido de você.
       Ela se levantou e andou em direção aos pés dele. Pegou os dois e começou a puxá-lo para a beira da cova ainda aberta. Serena parecia não fazer muito esforço para isso. E começou a falar com ele:
       — Sabe, eu tenho que agradecer a você por guardar minha respiração para mim. – Disse em um tom de conversa normal. - Foi por isso aquele beijo antes da forca. Sinto muito se eu te fiz pensar que eu queria algo mais com você. – sufocou um riso baixo – Mas você sabe, nós não tínhamos futuro. Afinal, eu morri alguns segundos depois, certo? Claro que você sabe. Foi você quem me matou não foi? – O puxava devagar para ter tempo de falar tudo que precisava para ele. – Mas enfim, como eu havia morrido, eu precisava de um empurrãozinho para voltar a respirar... Então, peguei a sua capacidade de respiração também. Espero que isso não seja um problema.
       Lúcio agarrava o pescoço com uma das mãos, e com a outra ele tentava se segurar a terra para não ser arrastado. Mas isso não mudava em nada o seu destino.
       — Aposto que quer saber por que ainda não morreu não é? Bem, eu vou te contar. Para voltar à vida, eu não precisava de toda a sua respiração. Então eu deixei você com um pouquinho dela. Isso vai matar você? É claro que vai! Só que bem mais lentamente.
       Ela chegou a beirada da cova e soltou os pés dele no chão. Suas pernas se contorciam tentando fugir, mas de pouco lhe valia o esforço. Serena se abaixou ao seu lado e se aproximou de seu ouvido. Disse em pouco mais que um sussurro:
       — Aposto que foi uma agonia guardar isso para mim, não foi? Tanto que você mal pode dormir essa noite. Bem...
       Ela se levantou e o empurrou para a cova com a ponta da bota que usava. Ele caiu de barriga para cima. Seus olhos piscavam com força. Chutou um pequeno punhado de terra para dentro da cova.
       — Bons sonhos. – Piscou um dos olhos, soprou-lhe um beijo e afastou-se deixando-o a sua própria sorte.
      Da parte de Lúcio, a proximidade da morte não era exatamente o que lhe preocupava naquele momento, mas, sim, o quanto o fim derradeiro demoraria a chegar.
      Serena saiu andando tranquilamente para o seu novo destino, em direção oposta a do vilarejo de onde viera. Entrou na floresta com o alívio de um viajante que volta para casa. Sentiu o perfume das folhas e da noite, deixando para trás os moradores de uma vila que a viram morta, apartando-se de uma clareira cheia apenas dos últimos suspiros de um homem... mas que logo estaria vazia novamente, submissa a luz mortiça da lua daquela noite inesquecível.

5 comentários:

  1. Que emoção Taninhaaaaaaa!!!!
    Adorei! Muito estar aqui noi seu blog! Sempre que precisar estamos aí, ok?

    Parabéns pelo blog. Um trabalho ótimo que você tá fazendo aqui.

    ResponderExcluir
  2. Su, sabe que eu adoro esse conto, rs, que bom tê-lo aqui!!!

    ResponderExcluir
  3. Esse conto é muito bem escrito sendo detalhista com uma ambientação e acontecimentos bem narrados. É bem estimulante ler um conto com essa técnica e sensibilidade. Gostei do desfecho da trama. Valeu a pena ler cada linha.

    Tânia, você podia remover o captcha.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Mariane Silveira09:47

    Olá!
    Meu nome é Mariane e há algum tempo acompanho as postagens de seu blog e outros de contos fantásticos. Estou fazendo uma pesquisa, de caráter monográfico, sobre a produção escrita em blogs de literatura fantástica e gostaria de saber se você poderia responder a algumas perguntas, integrantes do questionário padrão da pesquisa. Seria possível? Pode me indicar um endereço de e-mail para que eu as envie?

    ResponderExcluir
  5. Mariane, podemos conversar pelo seguinte e-mail: tania.mara.ms@gmail.com

    ResponderExcluir