13 de out. de 2009

notívaga

notívaga 



ao sol que finda
marfim sanguíneo
de lascívia fome
antecipa e suspira
 
ah, sorver assim
embriagante vinho
de vida inebriado 

 selvagem espasmo
 
dentes lascivos
desvendam
frutas de carnes
sonatas de gemidos

ah, serpente esguia
lábios esquizofrênicos
eterna tautologia

olhar rubi
espreita a noite
terno e feroz, perfila
calçadas doloridas
sementes de vida

palpitam rubros anseios
ao luar argênteo
oferta
e oferenda
em febril sedução...

Tânia Souza

2 de out. de 2009

Carona

       "Seu futuro será de muita luz!" Disse assim a conhecida cartomante. "Basta seguir a estrada da vida"
 

       "Mas devo seguir a luz?"  ousei perguntar, olhos fixos no espelho da vida.
    

      "Eu nada mais posso dizer" e sorriu-me. Estranhamente sorriu e eu acreditei,     acreditei mesmo sabendo que ela me queria longe de seu filho.
 

       Segui a estrada em busca do destino, a única que conhecia, a estrada que  cortava a nossa vila todos os dias.
 

        "Uma carona, seu moço?"
 

        "Pode subir, mocinha."
 

       Jamais imaginei que se referisse às luzes do caminhão onde teria roubada a  vida naquela mesma noite, ainda na estrada. Estrada onde agora vago em busca  da luz à mim prometida no espelho da vida.
 

        "Uma carona?"

Sementes do mal - Por Tânia Souza

   
Sementes do mal

         Sim, ouçam-me mundanas e damas de vontade duvidosa, ouçam essa que vos fala em púlpito nefasto. Também eu conspurquei meu corpo e minha alma em pecado e devassidão, entanto,  tivera comigo nos caminhos de ignomínia e desonra promessas de régia recompensa.

Mãe! Seria a mãe de um príncipe, herdeiro e guia para muitos, edificaria um reino para o rei dos reis, ao meu amado; enfim, na noite onde o silêncio imperava e horrores insinuavam-se entre as árvores, entregaria este tesouro e teria enfim a recompensa. Eu seria rainha.

Tampouco importava a dor que me sangrava por dentro nos últimos dias, podia senti-lo revirando minhas entranhas, ferindo-me com unhas pontiagudas... Meus pensamentos estavam fixos no triunfo. Cercavam-me, em sonhos mórbidos, vultos e portentos; podia senti-los ao meu redor, no cheiro ocre e nauseante surgia e desaparecia conforme a dor voltava.

Eis então, era chegada a hora. Gritei ao meu amado e mestre que viesse receber a oferenda, o filho esperado, a herança, o caminho da nova era. Ouviu a Terra uma ópera crescente, como orquestra insana surgiam lamentos profundos, cantigas mórbidas. Uma fina camada de suor cobria minha pele quase translúcida, entre gemidos de dor e espera, vislumbrava faces cruéis nos recantos sombrios da casa abandonada onde, como animal, eu procurara abrigo. Eram vultos, brisas mórbidas, mãos que se estendiam em jubilo e depois se recolhiam. Faltava-me às vezes o ar perante a densa angústia que se espalhava, ouvia então o  choro de anjos meninos e sentia como se fora ali, entre as paredes mofadas, o nascer de toda solidão
           
 A dor tornara-se insuportável e expeli uma massa disforme de carne e massa que grunhia e debatia-se. Vi com horror a espinha retorcida, a pele disforme e nebulosa, de um rosto sem face abriu-se um único olho, amarelo e purulento, tomado pelas mais doentias infecções, entre as pálpebras necrosadas surgiam dentes lisos e brilhantes.  Arfei, a voz faltou-me e com as poucas forças que me restavam tentei afastar-me da criatura que lançava na noite vagidos horripilantes. Arrastando-se pelo chão imundo e sangrento, debatia-se em busca de ar, balançando inúmeros braços cobertos por pêlos cinza. Ah, o horror. Eis que chegara o rei e seu séquito e minha promessa não fora cumprida. Fora eu impura para tão nobre senhor.

Seu olhar ferveu em ódio e de um movimento brusco, feriu-me com unhas pontiagudas, lacerou meu ventre até que uma mistura de carne e sangue espalhou-se e para delírios e risadas dos convivas, a criaturinha recém parida lançou-se esfomeada aos meus dilacerados membros até ser levada com eles.

Eu fora inutilizada, a mulher em mim morrera para sempre. Este castigo eu merecera por minha inaptidão, sigo viva para cumprir meu destino, suja, maltrapilha, maldita; caminho em busca da noiva perfeita, não fora ainda nesse ventre dilacerado que  meu  príncipe encontraria nefando acalanto, porém, será no ventre de uma jovem como vós, perdida em eterna noite de sombras, que a semente de meu senhor terá abrigo e, enfim, seu reino será real. 




Nota da autora: este conto é uma obra de ficção, não traduz minhas crenças ou opiniões; qualquer semelhança com nomes, fatos ou pessoas reais é mera coincidência.


Conto de Tânia Souza

1 de out. de 2009

Tristes




tristes


vertida em cacos
sentidos quebradiços
em pergaminhos vagos
perdida estou
da palavra ferida
em febre
busco e rebusco
fragmentos de mim


campos outrora verdejantes
cobrem-se em cinzas
sol que foi-se embora
apagou-se o d’antes

e se o riso vem
enfeitar a face minha
Sinto n'alma que chorei
comigo enfim, tão sozinha

envolve-me em trevas
ironias, ásperas palavras
em eco sem tréguas
sangram asas dilaceradas
quedo-me aqui
embargada em agonia

indiferença que angustia
injustiça que perturba
punhal de verbos em vão
ata e desata-me
tece/destece solidão
por caminho:
melancolia
esquecida estou
do azul
da fantasia
ah, sigo trilces vias

tenho por leito
ceifadas flores d'alegria
das cores pálidas
pétalas rasgadas
restou-me apenas
face triste e sombria

olhos rubros já não vêem
estrelas que mumuram
na noite vadia
e eu tão vazia
quisera apenas nao ser
acolheu-me eterna noite fria