1 de nov. de 2010

Ela - Por Luiz Poleto



Sentada naquele banco, ela contemplava a imensidão do lago à sua frente. A tonalidade escura parecia exercer algum tipo de fascínio nela, que todo dia estava ali, sentada. Ao fundo, no horizonte, a imensa cadeia de montanhas rodeava o lago, quase formando uma prisão natural.

Todos os dias, algumas pessoas chegavam, algumas parecendo desnorteadas, e paravam na beira do lago. E ela levantava, fazia um sinal, e as pessoas a acompanhavam. Algumas relutavam, mas por fim, por não terem lugar aonde ir naquele imenso deserto, acabavam indo também.

Sem dar uma palavra, ela as guiava até a outra extremidade do lago, onde a água parecia mais escura do que antes, e, em movimento das mãos, as águas se afastavam – como em um gesto bíblico – e revelavam uma escadaria, que descia para dentro do lago até onde a vista alcançava.

Meu, Seu - Por Susana Lorena


Meu
O sorriso, o abraço
o beijo, o carinho
Seu
A frieza, a indiferença
Esquivar, soltar

Meu
A pergunta, a dúvida
a insistência, a espera
Seu
A resposta, a calma
a traição, o basta


Meu
Mais perguntas, mais dúvidas
a tristeza, a raiva
Seu
O ponto final, a decisão
O olhar, a sinceridade

O Lamento da Carne - Por Celly Borges


   









O Lamento da Carne

Na noite em que a mente implorava o eterno descanso,
minha única visão do imundo se fechou, cedendo o curso
ao verme que se desenvolve, propaga-se
na matéria orgânica em decomposição que sou.

Sina

Sina

Um roto andarilho
Pedia-nos a licença
De uns versos contar
Enquanto o navio
No porto aguardava

E frente a espera ociosa
Lúgubre cantilena tomou lugar

Falou-nos o cantador
De mórbida noite
Onde embriagado
Em velha taverna sonhava

Quando ao vento mais forte
Um violinista triste chegou
Versos tristes a declamar

Era o violinista poeta
Servo da escuridão
E em macabro oficio
Seguia em poemas
De severa desolação