8 de out. de 2011

Estilhaços



Estilhaços

Cacos. Os pedaços do espelho estão sujos, marcado pelo tempo. Assim como o rosto refletido.  A mulher não se reconhece na nudez do reflexo. Cabelos oleosos caem, ralos e desordenados, ocultando seus traços. Olhos grandes, circundados por uma sombra escura, não escondem: ela tem medo. E cansaço. 

Quando ergue as mãos e toca os longos fios, eles se soltam e caem por entre os seus dedos. Ela sorri com tristeza, a mão desce e com suavidade passeia por onde antes existiam curvas e sente os ossos pontiagudos, parecem perfurar a pele de dentro para fora.

Um ruído interrompe seus devaneios e um rato minúsculo percorre o aposento. Fome, sim. Forças para caçar, não. Um desperdício, já não havia tantos ratos na velha habitação. O camundongo se foi entre os detritos.

Ela sabe que é fraca. Sempre o soube. Fraca demais para o combate, fraca demais para desistir. Mas a face refletida nos cacos do espelho está decidida. Uma faca do mais puro aço reflete a luminosidade que vem lá de fora. O aço brilha como seus olhos. Suavemente, ela encosta a lâmina nos lábios, ainda atenta ao espelho. Um beijo gelado,  murmura. E ri.

“Essa gracinha pode durar muitos e muitos anos. E salvar a sua vida, meu amor. Limpeza, amore, é preciso lavar com cuidado, secar, não deixar em contato com outros metais e nunca, nunca expor ao fogo.”

Ela gosta do contato frio contra o mormaço em sua pele. Sente a lâmina afiada e, de olhos fechados, imagina seu sangue escorrendo sobre o aço com delicadeza. Os dedos adivinham o cabo de marfim, a parte serrilhada, e a unha raspa a ponta perfurante. Linda! Letal! Riu novamente.

Houve um tempo que rir era comum. Como quando ouviu pela primeira vez falar no fim. O fim dos tempos, o fim do mundo. Depois, toda a alegria se fora.

Decidida, a moça ergueu a faca. As longas mechas caem pelo chão. Os cabelos vão sendo cortados sem rumo até ficarem mais ralos. Não fossem os seios miúdos, poderia ser tomada por um garoto. Mas é justamente o que ela deseja.

Ela nunca acreditara no fim. E estava certa. O fim realmente não havia chegado. Não para ela.  É uma sobrevivente, pois para desistir, também é preciso coragem. E isso, a garota nos cacos do espelho não tem.

Fraca demais para desistir
Fraca demais para morrer...


Continua...

19 de set. de 2011

Angel - Marcio Renato Bordin


Angel

Um conto de Marcio Renato Bordin

No balcão, os bêbados gritavam pedindo mais uma dose, cambaleantes nas próprias pernas. Uma mulher vestida em farrapos, parada na rua segurava os filhos barrigudos pelas mãos e camisas enquanto gritava pela alcunha de seu marido... Um dos bêbados... Fosse qual fosse, nem se dava o trabalho de olhar para a porta. 

Uma dupla sertaneja de quinta categoria cantarolava mais uma música de seu repertorio brega. Aquilo doía mais nos ouvidos do que os gritos histéricos da maltrapilha esposa lá fora.

N’uma mesa em minhas costas, um grupo mais jovem jogava truco enquanto enxugavam caixas e caixas de cerveja...  Esmurravam a mesa aos berros, subiam nas cadeiras, xingavam e riam... Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento.

Era noite de sexta-feira. Só queria tomar algo para relaxar o corpo da estressante semana que findara. Parei no primeiro bar que encontrei. Bebericava minha cerveja no balcão. Um copo n’uma mão e um cigarro na outra. Estava ao lado dos bêbados, de costas para os jogadores, perto dos músicos... Nunca tive tanta certeza de que o inferno existe, e eu estava nele.

Ráptus: s. m.

Psiquiatr. Impulso violento e brusco que pode levar um homem a um Ato violento fazendo-o perder o controle sobre si próprio.

Eu estava prestes a sentir na pele o verdadeiro significado dessa palavra... Ráptus.

10 de set. de 2011

Das realidades

— Vamos brincar? Eu tenho um coração!
— E eu tenho uma
faca.

 

Tânia Souza

6 de set. de 2011

de(s)caminhos

sigo descalça entre corpos e sonhos depedaçados
sentindo entre-os-dedos ausência de verve vida
há pedras, espinhos e ferrugem
guiando estes passos bêbedos e famintos

chove agora num lugar qualquer
dançam violentas sob carne e esperança
velhas lágrimas desperdiçadas

unhas e esmaltes descascados de outrora
sobre os destroços da última guerra
 asas cortadas sob agônica aurora

ainda há flores no caminho
ah, estas pétalas sanguinolentas
ferem de espanto minhas iris
farpas em cilios quase adormecidos
       
ácida e lasciva cor em boca-e-dente
estilhaça meus sentidos
resquícios de sonhos e gemidos

sigo em pés desnudos e lamento violino
esqueço-me, anjo perdido em ancestral batalha