13 de ago de 2012

A bela da noite e o valente Sirlônio


A BELA DA NOITE E O VALENTE SIRLÔNIO
Por Tânia Souza

Mas eita que tu é por demais de linda, heim princesa, quer sair da vida não? Pra uma gata como tu, eu dava pouso, comida e roupa lavada. Ficar nessa vidinha pra que, princesa? 
O que eu sei? Já andei pelo mundo, gata, vi coisa que tu nem sonha. Corpinho como esse, dava era muito material pra malandro e não falo de chamego bom não, tu sabe, as curvas que tem por fora, são boa por demais, mas as de dentro, valem é ouro. A parada acontece de verdade, to te falando. 
Foi lá pras bandas de Campo Grande. Conhece? Melhor, chega mais aqui, gatinha, que eu conto. Na época ainda era guri, nem conhecia esse mundão. Lembra a rodoviária velha, né. Praquelas bandas, tu manja os hotéis da área? Então, a maioria tá de porta fechando, o prédio virou um centro de lanches. As lojas do andar de cima? já era. Agora é rodoviária nova, só nos trinques, bonitona e longe pra cacete, ops, foi mal aí gatinha. Mas na época, aquilo era o fervo. Mulherada, cachaça e se o cabra quisesse, dava pra chapar legal. Tio Sirlônio não era santo, pois. Negocio feito, partiu pros furdunço. Saca só o nome da casa onde ele foi parar: Bela da Noite.
Mulher perfumosa, uísque importado e preço dobrado do que cobravam as damas da rua. Mas o tio queria coisa fina. Era como eu, o tio, não dava trela pra qualquer uma não. Mulher tinha quer ser feito tu, gatinha dengosa. Tinha mulher nada, o tio, veio em nome do patrão.

Então, noite ia alta e tava difícil achar uma mulher que enchesse uma cama, como ele queria. Até que ela apareceu. Quando viu a princesa, de cara notou que era biscoito fino, não sabia se teria grana para tanto não. Mas o aroma da moça era bom por demais, e o tio não era de resistir aos tranco de uma morena. Negócio arranjado e ela mesma oferecia o local, não carecia de ser no hotel dele não. Mas que cheiro bom que tu tem, heim gata. Pois, tu sabe né, na noite tem esses riscos sim. Quartinho era limpo e a moça, cheia dos dengos. Eita que tio suspirou largado com a festa que teria. Se teve? Ara, que os homem da minha casa não negam raça não, minha flor, que tu já viu ainda a pouco que a herança corre no sangue. O sacode foi por tudo que parte, incluso na banheira debaixo da agua morninha; serviço foi tão bem feito que a moça nem queria cobrar a noitada, mas tio insistiu, e acabou por pousar no hotel com a princesa. Tio Sirlonio não sacou que o doce, tava era doce demais.

Bebeu das mãos da moça uma tal poção revigorante “pra acordar animado pra ela”, a dondoca soprou. Daí, já viu né, sente só o aroma do embuste. Era arapuca das braba. Quando tio acordou, os músculos ainda reclamando dos exercício noturno, primeiro sorriu de gosto, depois foi sentindo o frio...

Tava na cama com a mocinha não, tava é na banheira encardida, gelo por tudo que lado e dor espalhada na carcaça moída. Bem no azulejo mofado, um bilhete das letras redonda e caprichada, mostrava um numero e dizia: “liga agora, se quer viver. Teu rim vai ganhar outro corpo, Sirlonio, meu bem.”

No hospital, falaram que ele teve sorte. A mocinha devia de te gostado dele, pois lhe levou só um dos rins. Fosse como os outros, tava é morto da silva. Pois, e é por isso que só levo meus chamegos pra casa, nada de hotel, princesa. Aqui tem perigo não, prezo por demais meu rim e aprendi a lição.

O tio? Passou bem com um rim só, e nunca esqueceu da morena. Queria o rim de volta, nada, queria era o cheiro bom da princesa que colou nele e além do rim, levou-lhe foi o juízo.

Sumiu no mundo, o tio.

Agora, chega de conversa, minha linda, que o sono ta brabo. Dorme ai, gata, amanha te dou uma carona. E já sabe, se quiser largar dessa lida, coração aqui é bruto, mas pra ti, entrego sem dó.
...
Madrugada, um carro parou em frente a casa silenciosa, um homem e uma moça abriram o portãozinho sem muito ruído. Ela levava nas mãos uma bolsinha de festa, e ele, uma maleta.

Sirlonio Gaudino e Pietra Galdino encerravam mais uma noitada. A motorista, morena bonita que só, apesar da idade marcando a face, sorriu quando eles entraram no carro. Aquele Sirlonio era cabra persistente mesmo, achou a morena e o negócio da família prosperava.

Pietra suspirou. O coração do moço, entregue de tão boa fé, até que teria boa serventia no mercado. Mas o sangue do pai correndo nas mesmas veias... E fora tão afoito que lhe dera pena servir-se de todos os órgãos.

Bem que lhe daria muito gosto rever o primo. Se ele ligasse a tempo, um rim não faria tanta falta assim...
Fim

2 comentários:

  1. Se o negócio é bom demais o santo desconfia, parabéns, um conto escrito com jeitão de "causo". Um grande abraço e siga meus blogs também. Tchau.

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  2. Que bom que gostou Luciano, já estou seguindo os teus blogs, apareça sempre.

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