14 de abr de 2010

O beijo!

O beijo!

Por Tânia Souza 

Não bani os fatos da memória, são apenas detalhes que vislumbro. O resto perdeu a densidade em meio ao universo sinestésico que vivo. Lembro do cheiro, das vozes, as cores e pulsações. Nada mais. Aquele 13 de abril - dia do beijo - amanheceu cinzento, quando me encaminhei para o calor sufocante das salas e das vozes aglomeradas. Livre enfim, sai tentando desviar da algazarra no corredor. Entre as risonhas feras, a euforia indicava que mais um ritual de passagem iniciava-se naqueles cantos quase escondidos da escola. Mais uma prova que queimaria os sentidos das vitimas em potencial, instigava a turba que bradava e seria lembrada para sempre como a primeira vez em que dois lábios se encontrariam para enfim conhecer o embargado sabor de um beijo. Assim seria.

Aos 17 anos, eu carregava o estranho fardo de nunca ter beijado.

Desconhecia o calor de outra boca, o som de outro coração junto ao meu. A emoção de dividir, compartilhar, viver no enlace de dois lábios. A minha boca era uma boca indecifrada, assim como o era meu coração carente de afetos, amigos... Quis ainda esgueirar-me, na tão conhecida sina de fugir das barreiras humanas. A indiferença dos colegas. A invisibilidade frente ao que eu nem sequer ousava cobiçar. A rejeição. O vazio. A sede por algo que não sabia nomear.
A vítima do dia, acaso dos acasos, era eu. Apostas e arranjos proclamavam os beijos. Os grupos moviam-se como ondas no concreto. Ai dos corações ansiosos pelos primeiros vôos, todos eram mestres e todos aprendizes. Os populares. Os belos. Os legais. Os nerds. Os emos. Os roqueiros. A longa e infinda lista da fauna humana unida por um ideal, por um gosto, por uma forçosa afinidade. A individualidade cedendo ao grupo. A matilha ao comando de um alfa.


Alguns não tinham tribos, vagamente denominados Os esquisitos, não andavam em bando, não havia semelhança na esquisitice individual. Os esquisitos eram principalmente os solitários.

Eu?
Eu era uma esquisita.

Ele?
Ele era inclassificável, ele era simplesmente o sonho real.

Elas eram apenas cruéis.

Descobriram a inocência no olhar ressabiado. Descobriram minha sede, a fome de um mundo que somente espiava. Seduziram-me. Simularam. Mentiram. Manipularam.

Eu?
Acreditei.

Depois foram apenas espinhos, a carne dilacerada. Os risos, o deboche, o escárnio. A ferida que não mais deixaria de doer. A boca vazia do tato, o coração partido em migalhas, as risadas ásperas impregnadas em mim.

Corri.
Por um longo tempo corri por ruas desconhecidas. Quando percebi, era noite, era o nada de uma estrada de chão. No meu desespero, procurei a solidão de um caminho ermo.

A lua alta no céu, imensa e sedutora iluminava a escuridão. Odiei o luar, aquele maldito e belo luar. Na dor que me consumia, sua beleza radiante feria-me ainda mais.

Foi quando a fera surgiu. Não houve tempo para sentir sua presença.
Seu beijo me consumiu. Literalmente.
A ferocidade dos dentes devorava meus lábios naquele primeiro beijo. O sangue derramando-se na minha pele enquanto nacos de mim eram arrancados na dor física de ser devastada, devorada. O bafo queimava-me, sentia a pele rasgada por dentes ferinos, pêlos que me roçavam quase suaves enquanto a criatura alimentava uma fome tão feroz como a minha. Um carro em velocidade interrompeu a refeição. Entre grunhidos e uivos raivosos, afastou-se rosnando.

Eu fiquei no asfalto gelado, mergulhada no sangue que deixava meu corpo. Tão perto senti o luar se aproximando. Seus raios cobriam-me, envolviam-me. A dor rasgava minha carne e sentidos. O luar queimava-me. Naquela noite arrastei-me e lamentei minha sina em meio ao matagal. Encolhida na dor, velada pela odienta beleza do luar.

Depois apenas um longo vazio. Pesadelos. A luta entre a fera e a doçura. A fome cresceu. E um aroma pungente me despertou. Guiada pela sede que sempre me consumira encontrei um sabor que me saciou enfim. Agridoce rubi que sorvi, pouco ciente da fera que vencia. Devastei, consumi, estraçalhei... A lua fitava-me, ela que inconstante aproxima-se e afasta-se arrastando o que outrora eu possuia de humanidade, ela que acolhe meus lamentos e liberta-me enfim.

Assim foi, talvez.

Eles, os outros, continuam lá. Na ferocidade das matilhas humanas, na caçada cotidiana, armadilhas entre concreto e asfalto. Mas já não há mágoas, já não há sentimentos, não há nada além da fome que me consome. Nada além de um beijo que ofereço em rubra carne trêmula. Dentes e bocas que dilaceram enquanto uivo ao luar.

Nada além da agridoce saciedade.


Conto escrito para o 6º Desafio Literário do Fórum da Câmara dos Tormentos

3 comentários:

  1. ...traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    TE SIGO TU BLOG




    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...


    AFECTUOSAMENTE
    TÁNIA

    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .

    José
    ramón...

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  2. Nossa! Causou arrepio, não o medo, a profundidade dos sentimentos impressos nesse texto, que é quase um apelo! Lindo,tenebroso, fantastico!

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  3. Tu escreves muito bem, tua escrita é sedutora!

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